Minha primeira tisana

janeiro 29, 2017

Tive um dia de folga inesperado hoje e estou tomando uma cerveja no sol e lendo um livro que veio parar aqui em casa quase por acidente, da Ana Hatherly:

 

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Ponho sim ponho já que não posso não pôr na sua ausência o sentido. A autonomia da arte é igual à dos fios no tecido – corte aqui corte ali – é o corte que faz o tecido. Doutro modo haveria só novelos.

 

Acho que vejo assim o mundo atualmente.

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Pas de deux

dezembro 18, 2016

Esbarrar no seu olhar

-ocupado no meu-

Uma perna esquerda cuja ponta do pé dentro do tênis resvala no chão, suspensa.

[semíminapausaparêntesenotação]

É preciso respeitar um homem que se escora em seu contrabaixo como um bêbado se apoia nos ombros de um amigo.

Revelações saturnianas

novembro 29, 2016

#5

Porto Alegre é purgatório.

 

#6

Convém não ter medo de colocar os pés no chão

(literal)

quase 3

outubro 31, 2016

Se te escrevo um recado – secreto-

é que te sinto falta e lanço garrafas aos oceanos que nos separam. Ainda que os mares fiquem para o outro lado. E se me procuro em linhas nas noites quentes

-explícitas-

é que te sinto aridez, deserto que tanto gosto e que me é distância.

Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar.

Tenho saudades de andorinhas, que todo dia no fim do dia se repetem: mergulham em grutas, submundos frescos, e se nutrem.

Subir pedras e entender as cabras na arte de distribuir cuidadosamente o peso e entrega-lo aos pés na descida, para que alcancem o solo com estabilidade. Preocupar-se menos com a subida pela frente e mais com cada passo dado, para preservar os joelhos. Cada passo te coloca em um lugar diferente.

Existe a distância entre duas pessoas que se amaram e a distância entendida em quilômetros. A distância que é feita dos anos e a que é feita de disposições. A distância do desejo e a distância do real. Uma distância que é sã, outra que é louca. Eu não sei se mais distante é aquilo que passou ou o que nem chegou a acontecer.A distância não é uma medida objetiva. Escamoteio no tema a minha vontade que é de falar sempre sobre a mesma coisa. A distância entre seus braços e os meus. Entre um e-mail e uma mensagem instantânea num aplicativo do celular. Essas distâncias me interessam. A distância entre um início de tarde que é quase manhã e meu nariz, congestionado de frio e de caos. A distância entre minhas duas pernas. Entre as unhas e os dedos. Entre a pessoa que escuta ininterruptamente o mesmo álbum e a mesma pessoa que dele enjoa. A distância entre as minhas costelas, que insistem em não fechar o plexo. A distância entre o trapézio tenso e o que relaxa. Entre quem sou, quem fui e quem virei a ser. Entre os vivos e os mortos. Entre os que moram em túneis e os que habitam a superfície. Entre um focinho e um amor. Entre o modo como desvirtuava o uso das vírgulas antes e agora.

Em trânsito #2

julho 19, 2016

Me apaixono por partes do corpo não convencionais:

– o formato das unhas das mãos de um rapaz jovem;

– os ossos da bacia da minha ex-namorada;

– as batatas da perna dele.

Exercício #1

junho 1, 2016

Avistaram-se na praça, a mesma praça a qual ela não havia retornado e onde ele sempre estava.  Baixou os olhos, miragem ao longe. Perto demais. Como eu disse, avistaram-se. Imediatamente se fez nela a memória de um sorriso de canto de boca. Ninguém escapa a um encontro. Lançou-se. Não ao encalço, mas ao acaso. Mentia. Esbarrou, sorriu, acenou. As conversas desconfortáveis são repletas de amenidades e cheias de querer saber mais, de procurar importâncias. De resolver desconforto em enlace descrente da necessidade de explicação. As vontades não são de dívidas, mas de diluição.

– Eu estou com alguém. Hoje.

Desencontro. Ao contrário do que tendemos a acreditar, a casualidade não preenche expectativas. E ao destino do flâneur âncoras escapam. Às vezes é preciso agarra-lo – o destino- com as duas mãos duras, areia. Há sempre algo que se perde e outro algo que fica na palma. Possibilidades. O acaso não serve ao querer, repito. Foi, partiu. Antes que ficasse. Cansou de fingir acidente. Desavistaram-se, terra à vista. Nada disso aconteceu.

Nesticodes rufipes

maio 3, 2016

Aprender com a paciência das aranhas que, estratégicas, tecem sua teia, viajam pelo ar e não revelam sua trama. Que têm as pernas maiores do que o corpo, moiras silenciosas, travam suas batalhas sem gritos de guerra e se lançam  ao outro com precisão. As aranhas, dia após dia, fazem o seu. E aguardam, armadilha. O tempo é uma aranha, com sua dedicação minuciosa ao cotidiano, dando voltas para chegar onde quer. Contornar o espaço, a comida, o problema. Tecem espirais.

 

Para Roberta

abril 14, 2016

Saudade

é quando gostaríamos de estar com uma pessoa, mas não estamos com ela

e nos faz falta estar com aquela pessoa.

Dizemos, então, que sentimos saudades.

Sentir saudades é como perder um membro

da noite pro dia,

é como acordar e não ter mais a nossa mão direita

– não importa que sejamos destros ou canhotos –

o que importa é que não temos algo

e que tivemos um dia.

Para ter saudade é preciso ser falho,

conceber-se enquanto faltante,

enquanto alguém que não tem um pedaço

e que não tem uma parte importante

de si.

Para sentir saudade

é preciso ser um pouco menos do que se é.