Estudos sobre o corpo

junho 24, 2018

Se o meu corpo é espaço: galáxias, estrelas

períneo: big bang ressoando nos ossos

uma via láctea de glóbulos brancos

um buraco negro no centro do peito

com as pontas dos dedos cheias de canetas bic

ela era toda outono

verde marrom

em uma virgem ascendente

um banho de chuva escancarado.

Gosto do jeito que os cabelos lhe cobriam as orelhas

porque ela faz frio.

Ela me deu um sextante de presente

para que eu possa olhar as estrelas de fora

e encontrar meus caminhos

mas dentro de mim o universo permanece

desorganizado.

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I

Vejo a luz entrar por uma janela diminuta numa casa em Maquiné. Branca, estourada. Logo vai anoitecer e a casa do vizinho terá lâmpadas acesas e a nossa, envolta em nuvens de chuva, não.

Vamos fazer um filme que nunca acontecerá.

II

O entardecer é de um amarelo fechado. Choveu e o sol só veio para ir. Me deito no chão da sala para ver a luz.

Dá vontade de ter as retinas mais amplas.

Correspondência violada

março 24, 2018

(…) Se me demoro na resposta é porque a vida me faz correr, me faz ter vontade de não viver e me faz querer coisas que possa segurar com as mãos, ao mesmo tempo que me diz que não há nada a se querer e que a única coisa segura nas mãos é ilusão. Buda não veio ao mundo pra trazer consolo.

Historias de mujeres

fevereiro 7, 2018

para Rosa Montero

 

Ser mulher
é morrer embaixo
das paredes duras
dos limites
ou no aterrador
esquecimento
Ser mulher
e ter um homem
ou por ele ser tida
é habitar a miséria
ser roubada
de tudo aquilo
que se poderia ser.
Como pode uma mulher
destinada à grandeza
da vida pública
– casa 10 –
esperar poder ser
uma mulher?
Como pode uma mulher
incapaz de viver à sombra
Como pode uma mulher
que ama
Amar como deveria
Amar uma mulher?

Cigarros

janeiro 15, 2018

Dizem que tem 5 minutos dentro de cada cigarro e eu acho isso uma bobagem.

O cigarro contém cerca de 4720 substâncias tóxicas.

Os cigarros que fumei contém encostas de montanhas com rostos esculpidos que, incandescentes, me olham, respiram e baforam.

Os cigarros que fumei me seguraram pelo estômago quando o chão parecia se desfazer e a densidade do ar era suor prestes a me afogar.

Os cigarros que fumei contém o espaço entre músicas de coração partido dos anos 60 e uma overdose de cocaína.

Os cigarros que fumei contém um cem número de amantes a cujos dedos amarelados das mãos eu beijei.

Todas as roupas acidentalmente furadas e o cheiro da noite anterior no dia seguinte.

Os cigarros que fumei contém o corpo dela e minha vontade de tocá-lo quando estávamos longe. Ou próximas.

 

tocar seu corpo

como quem acende

um cigarro no outro

 

Ele cheira a cigarro entre os meus lençóis e me abraça como se fosse a única coisa a ser feita.

Seus cigarros na minha mesa de cabeceira me fazem pensar em quando queria me casar.

Os cigarros que fumei contém o casamento que eu não tive, a cidade que deixei para trás, as garrafas de absinto, 1 carro, pelo menos uns 14 anos e inúmeras noites insones.

Os cigarros que fumei contém 15 dias de giro sufi que me fizeram parar de fumá-los por 4 meses inteiros.

Os cigarros que fumei contém a fotografia do reflexo de uma velha amiga no retrovisor.

Os cigarros que fumei contém cerca de 4720 memórias.

E esse poema só pode ter fim em incêndio.

 

Deslocamentos

dezembro 27, 2017

19/04/16

Quantas frases se escondem atrás de uma sentença encerrada em si mesma? Dizemos “espero que seus dias tenham sido bons” querendo pedir que nos contem em detalhes o passar das horas e das semanas, que nisso haja qualquer coisa que possa ser tomada pelo estado de espírito de quem nos responde e que haja ali qualquer brecha para prosseguir diálogo. Ao invés disso, escrevo uma carta imaginária enquanto espero no terminal de ônibus. Cheia de sentenças esperançosas, supostamente despretensiosas, que nunca alcançarão destinatário. O ônibus parte. Encerro.

 

07/08/17

Eu só sou livre quando estou partindo. Queria estar olhando as terras lá embaixo e escrevendo uma carta para alguém que ficou. Ou que partiu antes de mim. Mas tenho medo. Tenho medo da linha do horizonte e de não ter conexão com o chão. Eu tenho o nodo norte em touro, a raiz é minha ambivalência. Ou talvez seja o contrário. Eu gosto de frases que  adquirem outros sentidos na inversão. Todas as coisas poderiam ser outras.

Só o milagre moderno permite a imagem de uma nuvem

navegando um rio.

(deus refaz, eu refio)

feitiçaria

novembro 12, 2017

Nem vou falar. Vou falar de outra coisa. Calar. Silenciar é ainda melhor. Não vou falar de. Não. Vou. Transformar a negativa em transição. Transmutação. Mutar seria o suficiente. Uma televisão no mudo. Só ver, até se acabar a imagem. Não vou construir narrativa de. Só o arfar do peito. Comprimido. Corticoide. Sem destino. Propósito. Ilação. Não vou. Sem falar, já falei. Em línguas, codificação. Em algum lugar, a milhares de de anos-luz, alguém recebe essa mensagem. A quatro quadras de distância, você não.

To do list

outubro 6, 2017

Pesquisas para o plano de fuga

Atualizar currículo

Fazer portfólio

Nunca ganhar dinheiro

Não fazer a vida

Encontrar um propósito

não tem propósito na vida

Limpar

As pessoas não gostam muito de limpar. Eu gosto, mesmo quando não gosto. O que eu não gosto é que o cotidiano se meta na tarefa de limpar e não possibilite vivencia-la por inteiro. A limpeza é algo que eu posso controlar,  é como se estivesse limpando a sujeira, movimentando a imundície que se havia instalado, numa eterna tarefa de me tornar salubre para a existência em mim, Sísifo. Na limpeza não existe lugar seguro. A limpeza movimenta coisas, especialmente as que têm vontade própria, seis patas e se escondem no escuro. E somos obrigados a lidar com aquilo que se guarda nas sombras.

 

Organizar

 

É porque preciso controlar algo quando já não me controlo que preciso abrir as gavetas, armários, categorizar, alfabetizar, saber onde começa e onde termina. E para que as coisas nas sombras não me surpreendam. Mas esse já é um processo lento e custoso ao qual me dedico apenas pelo prazer do resultado que nunca sei quando virá, mas sei que será efêmero. Eu sempre acho que as gavetas são lugares seguros para se armazenar as coisas de qualquer jeito. É a pressa do cotidiano de novo. Nós não precisaríamos fazer grandes arrumações se tivéssemos tempo para nos mantermos razoavelmente ordenados.

 

Podar

 

Podar é uma atividade meditativa. É preciso estar presente na tarefa. Cortar com cuidado as partes mortas que se mantém pregadas e roubam a possibilidade do crescimento. As heras são trepadeiras. Os galhos se engalfinham uns nos outros e se usam como suporte, borbulham pra fora do vaso, têm uma relação tátil com o ambiente. Assim, sinuosa, requer mais concentração para que não se corte as partes boas com as ruins, aniquilando a possibilidade de renascimento. Toda poda guarda em si a possibilidade da aniquilação. É também necessário saber quando é preciso sacrificar uma parte boa que se encontra ligada a algo desnecessário: recuperar-se é também abrir mão do que parece são.

Escuto uma canção de Anelis sobre amor. Lembro dele num lapso entre as pernas. Os homens que não me quiseram moram acima do meu períneo. Muladhara.

A rejeição me habita o chakra básico.