Centelha

outubro 23, 2015

Eu estava no colo dela. Falava qualquer coisa sobre pagar a cerveja que eu lhe devia – e eu vou servir no seu copo -, foi a última coisa que eu disse antes dela me olhar. Sua mão acariciou meu braço direito. Prendi o ar. E ensaiei um afago no joelho dela. Dela. Aquele corpo que era um templo tão precioso. Que guardava dentro de si todos aqueles anos. Gerações. Incontáveis. É no seu corpo que eu medito. Eu tinha muito medo dela. Não dela, de tudo que aquilo significava. Do capricórnio que vai no fundo. Rabo de sereia. Do amor que eu sentia, meio sem saber como sentir. Cheio de dúvidas. É que perto de você eu me sentia uma adolescente. Ela me olhou com todos os anos que nos atravessam. Soltei o ar. Que falta você ia me fazer. Ali, ela era um enigma que eu nunca seria capaz de desvendar. Linda. E eu, tão incauta, quase como desnuda. Apavorada. Do beijo que não aconteceu. Nunca vai. Eu não sei o que do meu mundo restaria depois desse encontro. Eu ficaria em ruínas por ela. Mas não fiquei. Ela me olhou e eu queria aquele beijo que seria minha destruição. Tudo bem, eu posso ser outra. Uma brisa soprou a grama sob o sol e te tirou de mim. Ela me perguntou do que é que eu mais gostava.Do cerrado. Das caliandras. E do deserto. Da falta que eu sentia. E sorriu. Dela. Mas não disse, mesmo gostando. Eu queria saber um monte de coisas sobre ela, mas não perguntei. Não podia. Acho que por dentro eu negava que ela poderia querer saber um monte de coisas sobre mim. Tentei manter o realismo, ainda que ela ali parecesse ter vindo de um outro lugar. Eu me perguntei se dava pra saber. Se meu olhar me denunciava.Tenho certeza que sim. Mas eu nunca saberia o que ela achava disso. Logo eu, que sempre fui tão perceptiva. De repente não sabia mais nada. Era ela. Eu me apaixono por tudo que me destrói. E me permite renascer, metamorfoseada. Escorpião. Eu ali, tentando encontrar sentido nos caminhos novos que se delineavam dentro de mim. E ela flores. Que graça. No seu colo, no sol, eu esperei. Ainda espero.

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