Saturno em escorpião

junho 16, 2015

Eu soube quatro dias antes, que ela iria morrer, ninguém precisou me dizer, estava nos olhos dela. E me dediquei a tentar imaginar a vida sem ela e a pensar em todas as coisas que ela me ensinou. É só um gato, eu sei. Quem me conhece sabe que sou capaz de criar laços afetivos profundos com animais, mais do que com qualquer ser humano. Tento aprender com eles também a expandir essa capacidade, mas é ainda muito difícil. Ishtar tinha os olhos de quem conhecia os segredos mais escondidos sobre a vida e sobre o universo, e ela sempre me olhava como se quisesse dizer que eu ainda não havia entendido nada, que eu atribuía muita importância às coisas que não eram verdadeiramente importantes. Aprendi com ela a ter humildade e aceitar que não sei das coisas e que as respostas só se mostram quando precisam se mostrar. E que, acima de tudo, é preciso cultivar paciência e permitir que as coisas nos afetem e passem. Ishtar salvou a minha vida, não é um exagero dizer. Quando estive nos piores lugares era só por causa dela que eu me levantava e me forçava a respirar mais um dia. E essa é outra lição valiosa: às vezes a salvação vem dos lugares mais improváveis e se parece muito com precisar cuidar de outro ser para aprender a cuidar de si mesma. Eu salvei a vida dela também. Ela apareceu por acaso, doente e sozinha, e foi comigo que ela aprendeu a amar e confiar, e foi comigo que ela conheceu o que era ter um lar. E ver ela passar de um bicho arisco e assustado para a gata mais amorosa que eu já vi foi muito especial. O nome que eu escolhi para ela, mesmo antes de saber que isso aconteceria, foi Ishtar: deusa do amor. Não desse jeito higiênico que viemos a conhecer as deusas do amor, mas sim deusa do amor, da guerra, do sexo e da fertilidade. E esse foi o nome que ela aceitou desde o primeiro dia que a chamei assim. Ela era o amor da minha vida. Ela é o amor da minha vida. E eu não sei bem onde colocar tudo isso agora e nem mesmo como fazer pros dias seguirem acontecendo. No fim, fica uma lição horrível sobre desapegar, sobre cumprir responsabilidades com quem se ama, pegar no colo e dizer ‘pode ir, vou ficar bem’, mesmo sem saber como. E olhar o medo nos olhos de quem se vai, e encarar a banalidade da morte em sua quase indistinção com a vida, sem desviar os olhos. A morte não é bonita, a morte apenas é. Aprendi também a importância de ritualizar, limpar um corpo, encarar o rigor mortis, abraçar pela última vez, mesmo que não esteja mais lá, para guardar o cheiro. E tive vontade de flores e barcos e pira. E tive que aprender a lidar com a frustração de não poder prover o fechamento que eu gostaria. Uma amiga me disse que existe um ditado, talvez budista, que diz que se você conquista a amizade de um gato ele acompanhará sua alma pela eternidade. Eu espero que sim. Ainda tenho dois deuses pra cuidar. Segue o baile, um pouco menos colorido. O amor é uma pequena maldição. Gratidão por ela, Ishtar, pode ir pra casa.

ishtar