Dodecaedro

outubro 14, 2014

De repente ela me beijou. Doce e leve como beijo roubado seguido de risada. E eu a beijei de volta, tentando segurar minha avidez constituinte para não perder doçura. Os outros voltaram e ela se levantou. Alguma estranha cumplicidade tácita entre nós fazia parecer adequado não nos beijarmos na frente dos outros. O mundo lá fora rugia em tons de tragédia e a gente inventava corpo pra terminar num beijo clandestino. A cumplicidade dos corpos que extravasam juntos. De um instante ridiculamente banal em que nossas mãos se encontraram. O beijo roubado e a respiração dela no meu pescoço. Desejei, em segredo, que a tempestade durasse por mais três dias. Mas não. Permanece em mim um desejo contido, frustrado, ávido. Indisfarçável.