Correspondência Extraviada

maio 11, 2014

31/12/2011

 

Tem dessa gente que se apaixona por qualquer pessoa, porque o que quer mesmo é se apaixonar. Não importa mesmo muito por quem. Daí fica procurando alguém que encaixe na fôrma da sua vontade de amar e não se sentir mais só. E a qualquer sinal de realidade do objeto do amor, esvai-se de tudo o sentimento. Porque as pessoas, meu bem, são reais, reais até demais assim de tão perto, eu mesma nem gosto. É uma pena que sobrei na tua fôrma, por um instante eu gostei mesmo de você gostar de mim. Mas assim, tão rápido, você já preencheu de novo tua vontade, a tua urgência é muito grande pra deixar esse vazio. Talvez você acabe encontrando mesmo, alguém que esteja tão só quanto você, tão só a ponto de não suportar e buscar tão desesperada por qualquer um que seja igual a si.

Sabe que outro dia eu pensei em te perguntar o que foi que aconteceu. Daí percebi que também ando sendo só, tão só que fiz verdade de meia dúzia de palavras de um desconhecido. E achei graça de mim mesma, porque não descobri ainda se me incomoda essa solidão, ou se me acalanta. Há muito tempo me dei conta que solidão é mal que não se cura, mas que talvez possa ser bem. Desde então vivo nesse querer de não querer companhia, inconstante feito maré, que hora quer ficar junto, hora quer ir embora.

Eu não quero dizer de modo algum que sou melhor do que você, porque isso não é importante. O que eu queria mesmo dizer é que eu acreditei, mesmo sabendo que jamais poderia dar certo, mas que isso não é nada que não costume acontecer o tempo todo. Que eu sou mesmo uma pessoa ruim e amarga às vezes, e não há muita coisa que eu possa fazer a respeito, mas que se alguém chegar perto de mim, vai ter que lidar com isso. E eu não estou aqui dizendo que alguém tenha que chegar perto, ou que alguém vá querer chegar perto algum dia. Nada disso. Não quero fazer da minha vida e da minha solidão uma especulação amorosa, eu não jogo mais esse jogo. Não é porque eu amadureci nem nada do tipo, mas é porque eu resolvi deixar esse negócio todo em aberto. E talvez comece mesmo a gostar da ideia de ter uma vida minha só minha pra chamar de minha e fazer com ela o que eu quiser quando eu quiser. E ser amarga quando for amarga, e ser ruim quando for ruim, e não magoar quando for inevitável. Porque às vezes magoar É inevitável, mesmo quando eu digo que minhas engrenagens não funcionam, eu sei que não sou toda feita de peças.

E eu também não estou aqui dizendo que ‘ai, eu quero alguém que aceite as minhas falhas’, porque não é uma questão de querer. É assim que tem que ser quando duas ou mais pessoas decidem chegar perto umas das outras. Todas elas têm seus defeitos, raivas, amarguras, rancores. E todas elas têm suas qualidades sorrisos bonitos, abraços e pôres-do-sol. E é claro que dá pra escolher só um lado dessa equação. Mas acho que eventualmente isso se torna insatisfatório pra alguém. Para mim. Sempre se torna insatisfatório para mim. Porque me é difícil mesmo, lidar com as falhas alheias. É sim um exercício diário cotidiano de ignorar, repensar, resignificar e elaborar maneiras e maneiras de dizer coisas, ou de não dizê-las. Então não é que eu mereça alguma compensação que venha das outras partes, não existe tal coisa. É só que eu vou continuar sendo quem eu sou. E já não acho que seja um problema que ninguém queira ficar perto por conta disso. Aquilo que eu falei antes, da solidão poder ser bem, acho que é isso. Nós somos muito desesperados para encontrar alguém e acabamos não encontrando nem a nós mesmos.

Daí era disso um pouco que eu queria falar, acho. Que eu fico fiquei vou continuar ficando triste cada vez que alguém for embora ou tentar cortar o pedaço de mim que vaza da fôrma das vontades. Que a tristeza é inevitável, mas o sofrimento não. Isso é buda, acho. Mas nem é tão importante da onde vem a ideia, é ela em si. Então olha, não vou dizer que te desejo bem, não, porque não sou dessas que deseja bem pra quem magoa, mesmo que sem querer. Mas posso dizer que tô tentando muito não te desejar mal e que, para mim, isso já é muito. E não é por você, não. Tô tentando por mim, porque não quero mais carregar esse peso de desejar mal, de colocar nos outros meus desejos. Já passou tem tempo o tempo de desejar e fazer mais para mim, por mim. Também já não me desejo mal. Punir-me por ser quem eu sou não me levou a lugar nenhum. Já estou me perdendo por caminhos muito tortuosos de pieguice e auto-ajuda nessa carta. Ando sofrendo sim, mas não mais por isso, ando sofrendo por não ter uma vida minha pra chamar de minha que caiba na fôrma das minhas vontades. Ando aparando arestas e procurando desesperadoramente uma vida que seja igual a que eu um dia quis pra mim. E sofro, sofro, sofro, sofro. Porque bem sei que não existe realidade que caiba no tamanho exato da imaginação. Porque fico esperando que alguma entidade divina, percebendo o meu esforço, interceda por mim e me dê aquilo que há tanto venho buscando. E me recuso a pensar ver entender que talvez esteja buscando nos lugares errados, nas coisas erradas, que nada querem dizer sobre mim, são apenas o que elas são. E talvez eu mesma devesse ser em outro lugar. Mas não quero. E por isso sofro. Cimentei os pés na foz e fico torcendo para que não chova tanto que acabe por me afogar. Porque eu não sei como vou me tirar daqui. Mas eu já sei, que não é alguém que vai me tirar. E sei também, que não é punição divina que eu não receba aquilo que busco, talvez um dia seja bênção. Mas que ando recusando a ponto de perder a vida. É que tem sido muito trabalhoso esse negócio de me arranjar uma vida pra chamar de minha. Ando exausta. Não sei mais mesmo o que fazer do que vejo todo dia no espelho.

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