Cabimento

setembro 28, 2013

 

Caminha pela cidade e mal se lembra como era respirar lá fora. Um ar cheio de promessas, de frio e de chuva. E de qualquer coisa grande, prestes a acontecer. Mas não acontece, ela sabe. A única coisa prestes a eclodir é a imensidão da melancolia que existe dentro de si. Sente saudades de se sentir pequena. De olhar para o topo dos prédios, lá no alto, e se sentir esmagada, minúscula, correndo entre as veias da cidade. O cheiro de possibilidade sempre remete a outros lugares, tempos, nunca o de agora.

De uns meses para cá, ela tem o olhar vidrado. Não o tempo todo, só de vez em quando. No meio de uma conversa, de uma caminhada, ela para. Os olhos abertos, as pupilas dilatadas, sem piscar. Mirando fixamente lugar nenhum. Não sabe se é uma maneira de se desconectar de vez, ou de deixar passar por cima o turbilhão de coisas confusas que tem dentro, como quem mergulha para esperar a onda passar e não ser arrastado por ela. Ela faz um monte de planos enquanto caminha: ir ao parque ler um livro, qualquer coisa que deixe aberta a oportunidade de que aconteça alguma coisa. Mas sabe que vai voltar, sabe também que choraria por isso, por si mesma, se pudesse sentir alguma coisa sobre tudo isso. Alguma coisa que não seja esse incômodo de se espremer num mundo que parece ter sido costurado para outra pessoa.

Abaixa o olhar, escondido sob os óculos escuros no fim da tarde nublada. Algumas pessoas passam por ela, olhando. Ela se lembra de quando era bonito saber que cada pessoa tinha um mundo inteiro dentro de si. Balança a cabeça, sabe que não seria capaz de gostar de nenhum deles. Acharia enfadonhos, risíveis, hipócritas. Diferentes. Outros mundos nos quais precisaria se espremer para caber em espaços feitos para outras pessoas.

A cidade passa. Dentro dela, o tempo é outro. A cidade em fast forward. Luzes, neons e rastros. Embora seja dia. É isso que ela vê.

Abre a porta do prédio e sabe que falhou mais um dia. Cada volta para casa é uma prova cabal da sua derrota. Da impossibilidade de permanecer aberta. Exposta. Ferida. Que dia após dia fecha, sufoca, limpa, à espera que lhe coma a carne até os ossos. Em um estranho ritual de acalentar o que a destrói. Sobe as escadas sentindo ranger as articulações e pesar os músculos. Sobe as escadas e se pergunta por que dói tanto. Por que a vida dói tanto nela. Então pensa em nunca mais sair.

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2 Respostas to “Cabimento”

  1. Que texto! Um conto com poesia e tão impressionista que é possível ver e sentir. Parabéns!

  2. patricianardelli said

    Obrigada 😀

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