Como nos velhos tempos

janeiro 17, 2013

O lugar era escuro e pequeno. Quente. Chamava-se Clube Varsóvia ou qualquer coisa assim, que parecia já ter tido importância. Ela sentou na mesa e acendeu um cigarro, com as pernas cruzadas nas meias finas. Soltou a fumaça do cigarro para o lado, enquanto esticava a perna de cima para o lado oposto. Riu de quase cair, de semi entorpecida num lugar antigo de quase familiar. Ele voltou do balcão com dois copos de cerveja, os olhos brilhantes, uma promessa de futuro.

[sinto saudades de quando a gente podia fumar nos lugares fechados e escuros e etílicos e de perder-se]

Esticou a cerveja dela, que pegou com um sorriso e tomou um gole.

– Se divertindo? – ele perguntou, com um sorriso de querer mais.

Ela inclinou o tronco em cima da mesa, olhando bem nos olhos dele e disse: 

– Demais. 

Gargalhou voltando a apoiar as costas na cadeira. Suspirou e mordeu a borda do copo de plástico. 

– E então – ele falou

Silêncio. Ela deu um trago. Fundo. Soltou. Sorriu. 

– Eu não amo – disse sorrindo, antes de tomar mais um gole – E quando amo – continuou – é sempre demais – tomou mais um gole virando a cabeça para o lado. 

Ele quis dizer que não acreditava, mas acreditava sim. Só queria que ela o tivesse amado demais, para além da conta e até não aguentar mais. Mas entendia. Ela tinha decidido não amar. Mas buscava. Buscava, como que para se punir, alguma pessoa naquele salão que a fizesse amar demais. Só para depois querer rejeitar antes de esgotar. É que, ela sabia, só se fazia sentido quando encontrava os lábios de alguém. Depois não gostava do que via. E negava. As pessoas solitárias são frutos do desgosto por si mesmas. 

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