Saiwalô e o resgate do coração

abril 15, 2012

Saiwalô, após um tempo sem ouvir as batidas de seu coração, ouviu de um martim pescador que a máquina fantástica que procurava, o submarino, estava há dias aportado numa longínqua ilha no meio do oceano. Uma ilha de areia branca e vegetação farta cheia de delícias, com pássaros coloridos e criaturas maravilhosas que andavam sobre quatro patas. Decidida, lançou-se em busca de seu coração perdido.

Chegando lá, bateu três vezes na porta metálica da estrutura cor de cobre que soltava fumaça. Não houve resposta. Bateu mais três. Um marujo sonolento abriu a porta, para se deparar com a figura nua de Saiwalô, os cabelos enfeitados com estrelas do mar, em pequenas ondas cobrindo os seios fartos. Parecia uma pintura de Boticelli, uma das muitas que cobria o salão principal do submarino, pensou o marujo, mas de feições orientais.

–       Queria falar com seu capitão – disse Saiwalô

–       Ele não está aqui – respondeu, acanhado, o marujo.

–       Ele tem algo que me pertence – respirou forte ouvindo as batidas – e eu quero de volta.

–       Desculpe, mas

Saiwalô deteve as palavras do marujo forçando com o braço levemente sua entrada no submarino. Uma máquina fantástica, sem dúvida, lá dentro encontrou livros das mais diversas épocas e línguas cobrindo as paredes de um dos salões, outro estava cheio de pinturas maravilhosas que só poderia existir na imaginação dos homens (a imaginação das mulheres, sabia ela, guardava criações tão bonitas, intensas e assustadoras que poucos ousavam pendura-las nas suas paredes). Havia ainda um salão onde era possível encontrar diversos exemplares de plantas e frutos, ossadas animais, provavelmente recolhidos nas diversas ilhas por onde o capitão havia passado. Passou também por um salão infestado de relíquias da vida marinha, suspirou, até que finalmente chegou num pequeno cômodo que guardava apenas uma redoma de vidro alimentada por diversos tubos que controlavam a pressão e a temperatura dentro dela. O barulho era ensurdecedor. Tocou a redoma com a ponta dos dedos e viu ali dentro os pedacinhos de seu coração, sendo mantidos vivos como em estado terminal, para apreciação de algum empreendimento científico do qual não entendia nada.

–       Eu já disse, ele não está aqui.

–       Não faz mal – respondeu Saiwalô – eu espero. E sentou-se olhando a redoma, com os joelhos dobrados em frente ao corpo.

Três dias se passaram. Ou três dias ela contou. No mar, o tempo passa diferente, todo mundo sabe, e pareceram horas e semanas incontáveis as horas de espera de Saiwalô, tão perto de seu coração e ainda assim tão inacessível.

No terceiro dia ele chegou.

–       Bom dia.

–       O senhor é o capitão?

–       Sim. Mas não me chame de senhor – abraçou-a – estive esperando para encontrar você a minha vida inteira.

E por dias Saiwalô foi hóspede do quarto do capitão, contando-lhe sua história e explicando-lhe os mistérios do oceano. Sendo adorada como a deusa que havia sido apenas algumas vezes e ensinando o amor tal qual era contado nos abismos mais profundos e escuros do oceano. O capitão, contudo, desaparecia-se por tempos para coletar espécimes da ilha de delícias, deixando-a sozinha entre lençóis, decidido itinerários que não compartilhava com ela e que levariam a outras ilhas supostamente ainda mais cheias de vida do que aquela em que estava. Saiwalô percebeu que o capitão não pertencia a seus domínios, mas ao de tantas outras localidades que pudessem ser mais fascinantes do que ela mesma. Por fim, Saiwalô pediu de volta seu coração, em pedaços desencaixados que pouco a pouco voltavam a pulsar, para que pudesse ir embora, sabendo que não poderia jamais fazer o capitão abandonar suas ilhas e coleções para viver nas ondas ao seu lado, ele era como Jonas dentro da baleia.

–       Não posso fazer isso – ele falou

–       Precisa – ela respondeu – ele é meu por direito.

–       Mas eu quero que você fique aqui.

–       Como relíquia a ser exposta na sua coleção pessoal de maravilhas coletadas pelo mundo? Eu não sou uma relíquia. Tampouco fui feita para viver entre quatro paredes ocupando uma cama que só é dividida de acordo com a vontade de outrem.

O capitão suspirou.

–       Tudo bem, querida.

Levantou a redoma de vidro, fazendo chiar os canos e subir fumaça. Juntou os pedacinhos nas mãos em forma de concha e estendeu a ela. Saiwalô pegou um por um e escondeu debaixo das unhas. Virou as costas e voltou ao oceano, sem perceber que ele havia guardado um de seus pedaços no bolso direito do paletó.

Ainda assombrada pelo barulho que vinha das batidas, empreendeu uma jornada até os mares mais gelados a fim de que as águas medicinais fossem capazes de colar de volta os pedaços de seu coração que ela havia macerado violentamente um dia e que haviam sido limpos e escrutinados com esmero pelos cientistas colecionadores de curiosidades. Não entendia que ainda houvesse um chamado, uma espécie de ruído branco, que intentava leva-la para outro lugar, um onde ela sabia que não pertencia.

Sentada em lótus, sob o gelo, entre belugas, ela finalmente conseguiu aparar arestas e colar os pedaços de modo que fizessem sentido novamente. E viu que ali no meio, bem no meio do seu coração, havia um espaço em braço, um quadrado que faltava. Era isso, soube, que a esteve distraindo desde que saíra do submarino.

Neste dia o oceano revoltou-se, naufragando inúmeras embarcações e invadindo a costa em todo o globo terrestre com fortes marés ciclônicas como nunca antes haviam sido vistas.

Encontrou o submarino e bateu três vezes na porta como a tempestade que anuncia que não pode ser cerceada por barreia alguma construída pelo homem. O capitão abriu.

–       Você ainda tem algo que me pertence – falou com a voz da maior das ondas – e eu quero de volta.

–       Não – ele respondeu, e fechou novamente a porta.

Saiwalô esperou cair a noite e entrou furtiva pela escotilha. Esgueirou-se pelos salões no escuro até encontrar a redoma e ver que sim, estava ali o pedaço que faltava de seu coração. Levantou-a e alarmes soaram. Alguém estava maculando a preciosa coleção. Marujos se aproximaram correndo para impedi-la

–       Eu só vim buscar o que é meu – disse Saiwalô, na esperança de que ao falar na língua dos homens eles compreenderiam.

Ainda assim, os homens lançaram-se sobre ela com fúria. Então cresceram enormes garras nas mãos de Saiwalô, e dentes afiados de moréia, com os quais estraçalhou o peito dos marujos todos. O capitão, deparando-se com aquela cena, quase sentiu-se enjoar, se fosse capaz ainda de sentir qualquer coisa que fosse. Saiwalô abriu a redoma e pegou de volta o pedaço que faltava para completar seu coração.

–       Por favor – disse o capitão – só uma lembrança.

Saiwalô virou-se abruptamente, abrindo um rasgo no peito do capitão com as garras enormes.

–       Ele é meu – respondeu – Meu coração é meu e eu o estou tomando de volta.

Desfez-se em mil ondas que inundaram o submarino, arruinando parte de sua linda coleção de exemplares humanos e não humanos, e foi embora sinuosa, deixando encher de sal o rasgo no peito dele.

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Uma resposta to “Saiwalô e o resgate do coração”

  1. […] um dia saiwalô teve o seu coração roubado. e um dia saiwalô recuperou seu coração. […]

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