Shhh!

janeiro 28, 2012

Queria que você não contasse pra ninguém,
Mas sou eu na tua janela todos os dias.
Bem te vejo, querida, só pra saber
que está tudo bem.

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Song #1

janeiro 26, 2012

You are
my favorite
song.
Cada
c-e-n-t-í-m-e-t-r-o.

 

 

Saiwalô arrancou seu coração num dia de inverno exatamente igual àquele que fazia quando ela o encontrou no porão de um navio pesqueiro quase esquecido. Um navio fantasma, não fosse por um marujo que, sentado num banquinho ao lado das teias de aranha, contava as batidas daquela pequena curiosidade pulsante que a rede havia trazido um dia. Não podia fazer outra coisa. Ela, com o corpo coberto de algas, pegou de volta o coração e engoliu. E o marujo continuou a contar as batidas com o rosto perdido nas ondas dos cabelos azuis.   Até que decidiu aportar. E Saiwalô, geniosa, quis que ele ficasse com seu coração e, diante da negativa, sumiu-se determinada a florescer. Então foi num dia de inverno, igual àquele que fazia quando Saiwalô encontrou seu coração, que ela abriu o peito, exausta de carregar as batidas do marujo, e mastigou seu coração, acredoce, macerando e fazendo fundir todos os sentimentos sabores para parti-los em pedacinhos com os caninos. Embora fosse ela mesma uma pessoa de molares. Então cuspiu os pedaços do seu coração um por um nos quatro cantos mais gelados do oceano. Esperando que fizessem habitar as fossas mais profundas e o interior mais brilhante dos peixes que nelas moram.

 
Seguiu com estrelas do mar enfeitando os cabelos para fingir doçura nas ondas e deixou ocupar o peito com anêmonas coloridas, pois é conhecida a natureza pulsante das anêmonas que enfeitam o solo marinho. E esqueceu que um dia perseguiu incansavelmente pelos mares as batidas que assombravam o seu sono. Agraciou três ou quatro pares de pernas com espuma fresca de um dia de verão, viveu dias revoltos e dias calmos, dias gelados e escuros, e dias bonitos de sol com cheiro de coco e dendê. Mas nunca mais pôde se encantar daquele jeito que ia tão no fundo que doíam os ouvidos. E, inconstante como é, se enfadou desse vai e vem que nunca afoga.

 
Um dia, Saiwalô acordou num susto. Era uma cama macia que dividia com alguém que cheirava a baunilha e outro alguém de sorriso tímido. O mar sempre faz reanimar os sentimentos dos enamorados. Era uma noite quente e úmida de ar parado. Saiwalô acordou assustada e suando. Ofegante, não conseguiu retomar a respiração pelo que pareceu uma vida inteira. Ergueu o tronco e olhou em volta. Calmaria. O ar parado, quente, os corpos adormecidos, confortáveis, descobertos.  Acalmou o que quer que a sufocasse e deitou de novo. Sentiu faltar o ar mais uma vez. Então soube que alguma coisa grande havia acontecido, embora não soubesse o quê. Que alguma coisa tinha definitivamente perturbado o equilíbrio frágil do seu ecossistema e, dali para frente, nada nunca mais voltaria a ser como foi antes. Levantou, pediu desculpas e foi embora. Como maré que recua na noite.

 
Saiu bagunçada pelo mundo, mais salgada que de costume, até que um dia esbarrou. E foi direto ao fundo. Era o coração. Alguém tinha achado seu coração por acidente. Saiwalô não entendeu como aquilo poderia ter acontecido, mas desde então sente brotar qualquer coisa que expulsa as anêmonas de dentro do buraco. Qualquer coisa colorida. Descobriu que cada pedacinho semi digerido do seu coração estava sendo mantido dentro de um submarino, e que o capitão estava tentando fazê-los reviver na esperança de que aquelas partículas lhe explicassem os tantos mistérios que já havia vislumbrado no oceano. Ela entendeu que não teria mais escolha a não ser ir atrás das batidas enfim despertadas.

Put your records on

janeiro 13, 2012

Como se o amor fosse

algum tipo de jogo

pragmático

de escolher o momento.