Nota solta sobre a depressão

novembro 24, 2011

Olha, o que eu queria te dizer é que não existem fatos para serem analisados, só o que existe é isso aqui, e isso aqui é muito pouco, quase nada, para ser honesta. Daí que eu não tenho nada para falar, porque eu já sou tudo o que tenho, compreende? Eu não posso inventar qualquer meia dúzia de poesia pra fazer mais vida na minha vida, porque nada disso a tornaria mais do que exatamente isso o que ela é. E te digo que por vezes ela quase nem é. Eu podia deitar no seu colo e chorar contando sobre essa sensação que não me abandona, essa de estar matando tempo entre o momento que eu nasci e o momento que vou morrer. Eu podia chorar e você podia me fazer cafuné, mas nada disso faria a minha vida ser outra.  Porque não vai passar. Você sabe disso talvez tanto quanto eu. Que não é uma fase. Que não é um dia ruim. Que eu já nem penso se é ruim ou bom. É só isso aí, o que tem para hoje, para ontem, para amanhã. Para sempre. Então desculpa se eu prefiro assim, comigo mesma. Porque não vale o esforço de dividir com alguém se a gente sabe que irremediavelmente essa sensação persiste. Não é um abraço, um colo, uma caneca de chocolate quente que vão diluir essa falta de vontade, de perspectiva. De vitalidade.  Essa flacidez moral da minha psique. Essa irresistível atração pela inércia e pelo repouso aliada ao que, se por algum momento isso voltasse a importar, eu diria que é azar. Deve ser exatamente isso, sabe, talvez eu nunca tenha me importado, nem quando me importei. Talvez nunca tenha sabido me importar. Mas nada disso vai fazer mudar essa circunstância que é a minha vida, e as coisas que acontecem com ela, e as coisas que eu faço não faço. Esse conjunto pueril de tentar negar o que é apenas uma espera. Não por alguém, ou por qualquer coisa que fizesse tudo ser outro. Nunca foi realmente por isso que eu estava esperando. Acho que sabemos, eu e você, que o que eu realmente sempre estive a espera foi do fim. De qualquer tipo de arrebatamento silencioso, desses que ninguém nota, nem mesmo os escolhidos. Uma espécie de ato santo último, que me livraria de ser exatamente quem eu sou.  A redenção final. Não há sentido sequer em buscar sentido: a vida não é mais que um interlúdio da morte.

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4 Respostas to “Nota solta sobre a depressão”

  1. Deborah Sá said

    Pata,

    Existem partes em nós que não se apagam, ás vezes parece que a força se esvai, pois já é hábito remar contra a maré, braços cansados se tornam ainda mais dolorosos de mover. A inércia vem daí, de não saber mais o que fazer com o que vemos no espelho, da impotência e frustração diante da vida. Estafa.

    Mas é tudo que temos, não? Os deleites são escassos, mas o que nos espera além daqui? Creio que estar viva não é o orgasmo, os grandes acontecimentos, o tesão. A vida são as miudezas e nossa rotina repleta delas, a textura da camisa, a água que escorre sobre o corpo, os pés que caminham sem que percebamos as pedras do chão. Viver é a incerteza que está atrás daquela fumaça que turva a vista em um dia quente.

    Beijos,

  2. carlajaia said

    Minha alma,

    (gêmea, irmã)

    Venho lhe dar uma carícia – porque é o que posso dá. Que não te sirva de nada (acho que não serve): mas dou. Dou pq sei o que é tombar assim e pensar em escuridão: só o céu lá longe e infinitas estrelas. Mas aí eu digo que acredito em coisinhas. E acredito em coisinhas, inclusive, pq há alguém lá longe que me chama de alma gêmea e brinca comigo de coisas quaisquer. E essa moça é bela e brilhante e tem essa alma (gêmea minha) de artista meio poeta quase sofrida que pensa nessa escuridão: puf. E, porque ela é bela, gosto dela. Gosto do que há de miúdo nela: as palavra. Mesmo essas que afundam nas madrugadas que acontecem durante o dia. Mesmo essas. É que acredito – como um livro de auto-ajuda gasto – que palavra é força: mesmo a palavra triste.

    Beijos, minha alma.

    Carla

  3. carlajaia said

    “que é o que posso dar” * (obsessiva corrigindo texto)

  4. patricianardelli said

    gosto de voltar nesses comentários ❤

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