Maquinaria

junho 16, 2011

– É como se ele tivesse tirado de mim alguma engrenagem, de dentro do meu tórax, e tivesse colocado dentro dele. É assim que eu sinto. Que desde aquele dia algum barulho ficou sem correspondência dentro de mim, que tem alguma peça solta esperando o encaixe que se foi.

A outra tomou um gole pequeno de café com chantilly.

– Eu tenho certeza, sabe, que se você olhar bem lá dentro dele, vai achar uma engrenagenzinha sobrando que é minha. Era. Sempre vai ser. Deve ter algum nú-me-ro-de-sé-rie que comprova isso.

– Pega de volta – deu de ombros.

Balançou a cabeça negativamente:

– Não posso.

– Por quê?

– Acho que sentiria como se fosse o meu próprio peito sendo aberto, e eu não conseguiria. Sabe, eu tenho sentimentos. Apesar do que dizem. Eu não poderia roubar de alguém algo tão precioso, mesmo que fosse para pegar de volta.

– Mas e daí, vai fazer o quê?

– Vou fazer uma nova. Bem melhor e mais bonita. De bronze. E vou encaixar bem no buraco que ele deixou, e ela vai ser a mais brilhante de todas.

A outra olhou nos olhos dela, preocupada.

– Tá. Eu não sei bem como vou fazer isso. Antes era simplesmente algo que eu tinha, não tive que aprender a fazer. Era só quem eu era.

– E como você vai colocar quando estiver pronta?

– Suponho que alguém vai ter que colocar para mim. É o que seria mais lógico.

– Acho que você mesma vai ter que fazê-lo.

– Oras, isso é ridículo. Como eu poderia ser capaz de abrir meu próprio peitoral?

– E posso saber como você vai deixar alguém fazer isso sem ter a peça que te falta? Não foi justamente isso que você perdeu?

Silêncio. O pequeno café estava vazio exceto pelas duas que ocupavam uma mesa do lado de fora. Era uma tarde ensolarada de julho que terminava trazendo a iminência do frio à medida que os pássaros iam, revoada por revoada, abandonando as árvores.

– Bom – ela falou – então talvez eu tenha que aprender a viver com essa buraco no peito – deu um gole grande na xícara de café morno – Só.

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