Cotidiano

março 31, 2011

O azul e o branco em toalhas de mesa plásticas quadriculadas. O vaso de margaridas, ridiculamente amarelo. Fragmentos amorosos na porta da geladeira:

Mas eu entendo que no encanto a gente procura por qualquer poeira que nos possa fazer fantasiar por mais alguns dias. A gente aceita qualquer beijo, porque aviva uma centelha qualquer que distorce a realidade de um jeito que parece ácido. É por isso que eu não te dou a poeira, o beijo o ácido. Eu sei que você quer achar que os beijos, os toques, o sexo, tudo isso que a gente já viveu tantas vezes significam alguma coisa. Porque tem tanto tempo que a gente se divide por aí no fim da noite, não é? Que não pode ser nada. Eu sei que você pensa assim. Mas friamente quando eu olho para dentro de mim, e isso é difícil de admitir, veja bem, quando eu olho para dentro de mim eu vejo que não há nada, nunca houve nada, por você. Por nós. Eu queria, te juro, que houvesse alguma razão escondida. Mas não há. As nossas noites, todas, me desculpa agora por estar dizendo isso, foram só tédio. Meu tédio de uma vida de amores não correspondidos e de abusos. Os que eu sofri, os que eu cometi. Eu sou assim, uma pessoa cheia de tédio.

 

Culinarismos

março 16, 2011

 

 

Te como em pastilhas só para me punir. Para não me deixar te esquecer. Te tomo em goles pequenos, cheios de névoa. E deixo levar pela maré dos meus olhos os pensamentos tolos. Tão tolos que chega quase flutuam.  Assim de tão leve. Assim de tão doce. Do tipo que enjoaria se comesse. Até que queria. Mas deixo lavar o que não posso ter. Quisera ter sido capaz de antecipar, se eu tivesse sido outra. Mas tudo isso também são tolices, não é, meu bem? Belas enjoativas tolices que não sobreviveriam a uma só mordida. De tantas histórias que não escrevi, você é mais uma. Eu te queria tanto que ensaiei o que dizer a semana inteira. Você nunca vai saber. Porque você foi para longe do meu torpor. Eu nunca pude te dizer, sabe, como eu gostava, como eu tinha saudade daquele rolinho primavera que a gente nunca fez e que você nem deve se lembrar. E tantas tolices que nem sei lembrar. De tomar chá verde numa escada. Eu não sei bem como lembrar de todas essas coisas. Com doçura? Pesar? Eu não sei. Você me deixou assim, no meio do caminho.