Juízo Final

outubro 14, 2010

Calamidade sabia que um dia teria que voltar, lá onde tudo começou. E que quando isso acontecesse teria que encarar tudo o que havia feito, todas as cidades que havia queimado por onde passara, ainda que não tivesse escolha. E Clementina, que a havia abandonado. E o contrário. Calamidade sabia que era ela quem sempre abandonava, que sempre fazia tudo terminar em chamas, mesmo que não quisesse. Sabia também que havia tentando, Clementina, mas ela nunca mais havia atendido a porta, e agora só lhe restava a sua falta.

Foi pensando nisso tudo que voltou, com os pés em carne viva de tanto chorar as culpas. Precisava se eximir, pensava, precisava explicar-se, dizer a alguém que não era por mal, entende? Não era por mal que terminasse por fazer com que tudo chegasse ao fim. Que não podia evitar, era sua natureza. E então sentiu sangrar de novo as costas ao avistar a fonte. Entrou no prostíbulo que tocava Mood Indigo para ninguém há nem se sabe quanto tempo e se lembrou de Susane.  Não pôde evitar que as lágrimas lhe escapassem ali nas ruínas do prostíbulo, lembrando dos dias bons e de como sempre regressavam os dias ruins. Quantas vezes não havia morrido. Seria mesmo possível que aquela seria a última?

Banhou-se na fonte, como se fizesse parte do ritual que a levaria de volta para o céu, e esperou. Um a um eles foram chegando: o prefeito de bigodes largos, os donos de armazém, as madames de famí­lia, as crianças de suspensórios. As prostitutas. Estavam todos ali de novo. Menos Susane, que permanecia sendo adorada por povos que não seguiam as regras de deus. Que pena, pensou no quanto gostaria de rever Susane, que talvez lá, onde era adorada, Calamidade não tivesse que prestar contas de suas culpas a ninguém, nem ter culpas, quem sabe. Mas Calamidade havia caído do céu numa noite quente, e sentir culpa era o desígnio das criaturas de deus, mesmo as renegadas, fugidas. Não é realmente possível deixar de ser quem se é.

Um por um eles entravam na capela, aquela que Calamidade sempre havia evitado, e não olhavam para ela, que os havia incendiado. Havia imaginado os olhares acusatórios, mas não os recebera. Parece que, no fim, só importam os próprios destinos, jamais os alheios. Eles automaticamente redimidos por terem sido fadados à natureza de Calamidade, única realmente culpada por. Pelo que mesmo? Ser quem se é. Por chorar lágrimas que se inflamavam sempre. Por isso que Calamidade havia sido expulsa, não lhe fazia sentido que não pudesse deixar de ser quem é, mas que tivesse que conter o que havia de mais seu em si através de dores, punições, rituais. Não havia se criado assim, se pudesse talvez quisesse ser outra. Percebera com o tempo que isso era algo que todas as pessoas simplesmente faziam, que era o que as tornava humanas.  Era o medo. Não pelo que havia em volta, mas o medo do que teriam que responder no final, o medo de que nem deus aceitasse o pecado do que eram. Era isso o que os mantinha sólitários. A impossibilidade de encontrar a quem, por aceitar a si mesmo, também aceitasse outros. E então chegou a sua vez.

E as nuvens se abriram acima da fonte. E lá estava ele, tão velho e tão macho quanto se lembrava, tão cheio das certezas que ele mesmo havia criado sobre o que nunca vivera. Sobre o que nem mesmo havia criado. Não havia multidão a sua volta como Calamidade imaginara, nenhuma das almas que havia condenado ao fim a esperava para o momento de sua inquisição pessoal. Ocupadas com suas próprias redenções, assim eram as criaturas de deus, que não possuíam motivos para julgar a quem já era, de antemão, culpada. Não, talvez antes, quando salva-la de sua heresia seriam o caminho para própria salvação. Não mais agora, que já não importava. Não se vingam os homens e mulheres de deus somente por vingar-se. Vingam-se sempre por favorecimento.

– Estou aqui. – Disse Calamidade, sem medo. No fundo ansiava pela punição, ansiava por algo que lhe tirasse das costas o peso da culpa, de ser quem era.

– Você queimou esta cidade e muita outras mais, matou todas aquelas pessoas e abandonou umas outras tantas, condenando-as a terem que lidar com o que encontraram. Mas é preciso que você diga por si mesma:  o que você fez?

Calamidade olhou fundo nos olhos dele, duros, pesados, os olhos de quem tira os pecados do mundo, e respondeu:

– Eu amei.  Todos os dias. Todas as horas. De tudo que eu sou. Com tudo o que eu tenho. Sempre me levaram assim, inteira, e me devolveram com mais. Eu sempre tive espaço pros outros dentro de mim – respirou -. Foi isso o que eu fiz. E eu sei que, apesar de tudo, eu amei e ninguém pode me dizer que não.  – suspirou, sabendo que o estava desafiando. Sabendo que, o amor, era dos fatos o mais incompreendido por ele. O que mais tentou conter.

Ele a fitou como se possuísse mesmo toda a sabedoria que se advoga. Calamidade continuou:

– Eu não queria matar todas aquelas pessoas. Não queria abandona-las. Eu só queria que alguém me aceitasse. – Clementina – Como eu sou. Queria poder me entregar apenas no que é bom.  Mas eu não posso deixar de ser quem eu sou. Queria, mas não posso.  Eu sou tudo isso, com as lágrimas de querosene e tudo mais.  Aceito a minha punição por ser quem eu sou – terminou, ansiosa.

Ele não disse nada. Nunca falava além do necessário. As nuvens se fecharam e tudo acabou, como se nem houvesse começado. Nada, apenas Calamidade na fonte. Era isso então? Viver todos os dias sendo quem se é, era essa a sua punição? Mergulhou na água para tentar impedir as lágrimas, mas sabia que não conseguiria, nunca. Calamidade é destino em si mesma.      

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2 Respostas to “Juízo Final”

  1. Renata said

    Uau!
    Arrasador, Pat.
    É bem por aí, mesmo, não é?
    “Não, talvez antes, quando salva-la de sua heresia seriam o caminho para própria salvação.”

    Parabéns, texto magnífico!
    Bjs!

  2. patricianardelli said

    Obrigada, querida!
    Saudades de você.

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