Eu perdi.

Todas as apostas que fiz.

Todos os jogos que joguei.

Todos os amores que ganhei.

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Eu Perdi.

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Bílis

setembro 11, 2010

Fazia semanas que acordava com um gosto amargo na boca, que parecia querer fazer insistir numa digestão difícil. Pensava na maldição do corpo, que fazia persistir mesmo quando ela já havia desistido de absorver, transformar, tornar útil para depois se livar do resto.
Os dias mudaram, ela sabia, parecia agora que se sentia envolta em outras águas, menos turbulentas. Não tão reconfortantes quanto o frio que imaginava lhe invadindo as narinas, os poros, violentamente englobando o corpo e fazendo esquecer assim as outras dores. A saudade, os arrependimentos, as dúvidas.
Não. Agora eram águas paradas, inertes, cheias de microorganismos que a envolviam e a faziam como se tivesse vontade de abraçar-se e hibernar inerte no fundo. Como a saliva, quente, amarga, que a assaltava em todo despertar. Talvez tenha pensado tanto que acabasse estando mesmo afogada no corpo de alguém.
Nos sonhos, entregava-se. Chorava lágrimas desesperadas de alívio e desencanto, que diziam o que ela secretamente pensava, que achava que iria morrer quando. Que sabia que ia morrer quando. Mas que não havia morrido, não. Que estava viva ainda e. E não havia doído tanto, embora doesse mais do que. Mas que, acima de tudo, não a havia matado o desgosto. E que teria que viver com ele todos os dias de agora em diante. Mesmo que desistisse, exausta, inerte, na água quente, parada, contaminada.
Os dias a faziam ir ao parque praticar yoga no meio da manhã, esperando que a acalentasse o sol ofuscante. Que não a deixasse enxergar nada. Porque não havia nada para ver, porque precisava da ignorância de sua própria situação.
Ela acordava e tomava um café da manhã tentando tornar doce o dia, porque já não sentia o gosto das coisas, todas, que eram pouco relevantes. Que estavam em canecas antigas cheias de falta de sentido. Cheias de não ter morrido.
Quando saía, sabia que ainda não havia encontrado em si substituto para o conforto e pensava em como nunca se conseguia conceber em separado. Conforto era fundir-se. Com o sol, com a água fria turbulenta, ou quente, parada. Com os braços de outrem. Confortar-se era confundir-se. Não importava que não se quisesse assim. Nestes dias de primavera, ao menos, sentia-se confortada pelo sol quando andava de um lado a outro da cidade. Permitia-se perder-se em músicas e filmes que a fizessem querer chorar, que a fizessem invejar os destinos que não eram seus. Porque recuperava o conforto no dia quente, nos cobertores macios. Mas ainda não em si. Nunca se confundia consigo mesma, era-se sempre estranha.