Parêntese

julho 15, 2010

Acordar, tomar um café, meter os pés num par de sapatinhos de gosto duvidoso e sair. No atual estado das coisas não há tempo para o que me atravessa por dentro dia após dia, não há tempo para sofrer a falta até digeri-la. A falta, meus caros, é sempre difícil de ser digerida, requer de nós muito mais do que uma boa noite de sono. Rotinizar os sentimentos, é disso que se trata a vida, de pensar quantos 15 minutos vai haver para sentar em frente de si mesma e sentir. Os meus sentimentos sempre me pedem muito mais do que 15 minutos, e é por isso que negligencio. As pontadas de sentir me atacam vez em quando ao longo do dia, um quê de uma melancolia súbita, uma falta que me aperta o estômago, a saudade que me faz escapar por minutos para outras vidas, o fracasso que, de um jeito ou de outro, não vai me abandonar tão rápido. Afogo, ou tento, para não parecer assim, tão sentimental, na frente daqueles que de mim não conhecem além do desempenho profissional. Afogo porque há muito a ser feito e muito pouco tempo para fazê-lo, não há tempo para mim, não há tempo para as lembranças e por isso eu as escrevi num caderno velho, na esperança que saíssem definitivamente de mim e fossem mesmo para uma casa fora do tempo, onde somente vivem as memórias, as gatas brancas e as garrafas de San Remy (e é metade gratificante, metade terrivelmente doloroso, saber como todos estes elementos poderiam ser um conto lindo, mas aconteceram mesmo e foram parte da minha vida, serão para sempre, talvez). Mas não vão, e já não é possível retornar a essa casa sem doer. Não é mais my blue heaven, assim tão cheio das coisas que não existem mais, que nunca irão voltar, e que eu não consigo deixar para trás dentro de mim. Na durée do meu pensamento ainda é tudo uma coisa só e não há tempo para fazer parar o fluxo que me demanda dia após dia a continuar vivendo. E não há espaço para viver o luto, para derramar uma lágrima pelo que foi. Por isso me escrevo assim nessa verborragia, na esperança vã de que alguma coisa deixe de me habitar por dentro, ao invés de transformar-me em ficção. Eu não sei quem foi o imbecil que disse que se distrair até passar é bom, não, não é, eu não quero me distrair de quem eu sou.

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