A Torre

março 20, 2010

Cecília entrou em casa, se jogou no sofá, largando a bolsa no assento do lado,acendeu um cigarro e soltou a fumaça:

– Estou insatisfeita.

Ele, sentado na poltrona, levantou os olhos do jornal e falou:

– Eu entendo.

Ela respirou fundo:

– Não me importa – e tragou.

Ele não respondeu, dobrou o jornal, colocou em cima da mesinha e foi para o quarto.Cecília fumava o cigarro soltando a fumaça para o alto, e a cada trago era como se trouxesse para dentro de si uma dose de comodismo, de aceitação. Talvez seja só cansaço, ela pensa, estou sempre tão cansada.

Apagou o cigarro no cinzeiro e levantou devagar, sentindo o peso dos dias nas pernas. Pegou a bolsa mostarda e entrou no quarto, sentou na cama, tirou os óculos, os sapatos e respirou fundo. Levantou, foi até ele e lhe deu um beijo terno na têmpora direita:

– Me desculpe.

Ele olhou magoado e disse que estava tudo bem.

– O que houve? Já tem muito tempo que você se sente assim.

– Nada, eu acho. Estou insatisfeita, só isso.

– Com o quê?

– Com tudo. Absolutamente tudo.

Ele olhou melancólico para baixo dizendo boa noite.

Cecília deitou e virou para o lado oposto ao dele, encolhendo-se, sempre dormia assim, como se tivesse medo de encostar, como se desejasse ocupar menos espaço no mundo, como se desejasse fazer parte de si mesma. Ele lhe deu um beijo de boa noite, o que a fez querer chorar só um pouco. Antes de dormir a cabeça de Cecília repassa-lhe a insatisfação ponto a ponto e tudo misturado: o emprego, a cidade, o apartamento, ela mesma, os amigos, ele.

Era quatro da manhã quando ela acordou suando e com frio. Chovia e os relâmpagos iluminavam o quarto, decidiu acender um cigarro para se acalmar. Poucos minutos depois ele acordou:

– O que foi?

– Tive um sonho ruim.

Ele a abraçou:

– Como foi?

– Confuso, acho que foi essa chuva, estava no meu sonho – riu – e tinha essa carta de tarô.

– Qual delas?

– A torre.

E o que significa?

– Não sei.

Voltaram a dormir. No dia seguinte ela acordou na cama vazia, estranhou.levantou para fazer uma xícara de café e quase não deu falta das roupas que não estavam mais lá. Enquanto tomava o café na mesa reparou no bilhetinho cinza embaixo do telefone. Pegou.

“Cecília,

fui embora. Não há sentido em permanecer do seu lado se eu já não posso te fazer feliz. Não me pede para voltar, você precisa da tristeza para se sentir viva, é por isso que você está sempre insatisfeita, e eu já não aguento mais ser triste.

Se cuida.”

Ela apoiou o bilhete na mesa e chorou.

Terminou de tomar o café, as coisas não podiam terminar assim, sem mais nem menos, pensava tentando segurar as lágrimas que insistiam em irromper, ardidas. Cecília passou o resto do dia ali, sentada na cadeira da mesa olhando pela janela e tentando secar os olhos, esperando um raio de sol no meio da chuva. Mas o dia permaneceu nublado e Cecília foi dormir exausta de se sentir culpada.

O dia seguinte amanheceu em sol, o que fez com que Cecília rolasse para o lado quente e aconchegante da cama. Quis desejar bom dia, mas não podia. Tentou desejar bom dia para si mesma e quase conseguiu, talvez fosse só uma questão de tempo.

Tomou o café da manhã pensando em tudo aquilo que não gostava nele e achou bom que não precisasse mais se incomodar com isso. Apesar de. Afogou o pensamento com uma torrada e o último gole de café. Trabalhou o suficiente para chegar em casa, ligar a TV e morrer. Até o dia seguinte.

Dois dias já haviam passado quando Cecília acordou se sentindo soterrada. Buscou um saco de lixo na cozinha e começou pelas estantes, isso vai, isso fica. E por mais de um par de dias suas manhãs e suas noites foram preenchidas pelo ritual de dispensar e reordenar. Sentia-se sufocada, presa por todo aquele conforto das coisas, precisava de espaço. E foi assim que Cecília percebeu que as coisas podiam sim acabar sem aviso prévio.

No final da semana Cecília entrou em casa, trancou a porta, largou a bolsa mostarda no sofá, pegou o telefone e sentou. Olhou as teclas e sentiu borrar a vista. Olhou para cima com a mão sobre o nariz, tentando segurar as lágrimas. Serviu uma taça de espumante e ligou:

– Fui demitida hoje.

– Demitida? Por quê?

– Encontraram alguém melhor.

– Que pena.

– Mas por um lado isso é bom, tem tantas outras coisas que eu sei fazer bem…

– Tem sim, vai dar tudo certo.

– Sinto sua falta.

– Eu também.

Desligou o telefone sentindo as lágrimas rolarem pelo rosto. Sentou no chão do quarto, remexendo fotos antigas e desejando ter tudo de volta entre um gole e outro. Cecília queria ter tudo de volta mesmo sabendo que isso não a faria feliz. Cecília não sabe ser feliz.

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8 Respostas to “A Torre”

  1. Suas histórias curtas — você prefere chamá-las de fragmentos também, não é? — estão cada dia mais contundentes. Isso é difícil, mas não é ruim. Não é ruim mesmo! É apenas contundente. E pra que serve escrever como quem atira pra cima, pra não acertar nada, né? Suas histórias acertam, e dói, e isso é bonito e certo.

    Amo vc.

    • patricianardelli said

      Algumas são histórias, outras são fragmentos não propositais da mesma história. Obrigada pelo elogio, embora eu não saiba bem se isso é um elogio =]

  2. Lekkerding said

    Gostei do conto. Mas fica a pergunta.
    Cecília sabe amar?

  3. Carla said

    Essa angústia silenciosa de Cecília aperta o coração. Como é possível gritar angústias, vomitá-las, estraçalhá-las, sem que isso soe como histeria? Como matar a dor sem enlouquecer?
    (gosto de alguns miúdos enlouquecimentos. mas sei que são miúdos.)

  4. Patricia said

    Acho que, lá no fundo, somos todas histéricas. Pelo menos eu e Cecília.

  5. Carina said

    Caramba! Você escreve muito bem!! Essa angústia da Cecília, sabe? Me identifiquei. Deixa eu te perguntar: você tem alguma influência de Caio Fernando Abreu? Abraço.

  6. patricianardelli said

    Carina, obrigada! Do Caio até hoje eu só li o livro “Triângulo das águas”, cujo conto “O Marinheiro” me encanta particularmente.

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