Passion Fruit

setembro 23, 2009

– Eu quero mais – ela tocou o rosto dele com os dedos semiflexionados.

Ele olhou para frente, o dia claro que desmoronava atrás dela, caleidoscópio.

Ela sentia timidamente a barba mal feita embaixo das pontas dos dedos, frios, trêmulos.

Vertigem, o esforço de conter as lágrimas, por que é que o mundo tem que ser tão colorido? – ele pensava, ofuscando.

– Eu vou sentir falta de tudo isso, mas eu preciso de mais. Não, eu quero mais. – Olhou decidida, quase com orgulho de si mesma e sentiu vontade de comer pitangas. Azedas.

– Podemos ir para outro lugar?

– Eu gosto daqui – ela falou enquanto se via enterrar a ponta do pé direito na terra vermelha. Sapato branco, terra vermelha.

– Está muito claro aqui – exposição -, a gente não pode discutir isso em casa?

– Eu estou cansada de ficar fechada – fechada, presa no seu escuro morno aconchego sufocante. O seu amor viscoso, nego, piche, lentamente me englobando. De novo. A cada vez que eu tento me libertar, céu, sol, cor e banho de água fresca. Exposição. Conforto.

– O que… – não deixa essa luz toda entrar em mim que eu não enxergo – O que você quer?

Ela olhou para os olhos dele. Duros, catatônicos, e deixou escapar uma lágrima por aqueles olhos que eram muralhas. Virou para o lado, olhando para o céu na esperança do vento lhe secar.Esfregou o antebraço esquerdo com a mão direita, congelada, sabendo que nada do que falasse o alcançaria realmente. A menos que ela entrasse lá: negro escuro viscoso. Quente. Macio. Onde nada do que ela pudesse falar faria sentido.

– O que eu quero? Eu quero isso – olhou em volta – eu quero acordar e abrir as janelas, respirar a limpidez do dia, cozinhar uma meia dúzia de vegetais cheirosos e fazer sexo depois do almoço, na preguiça da siesta, como se tívessemos o ano inteiro só para isso. A vida inteira. Eu quero sentir como um soco na boca do estômago, de perder o apetite, de chorar por não me caber em mim mesma. De achar que eu vou morrer na ausência. Eu quero aguardar ansiosa o reencontro, o entendimento, o pedido de desculpas, porque sem ele eu definharia jogada na cama por uns dias.

Caleidoscopicamente, o mundo se torce e se retorce atrás dela. Por que é que tem que ser tão colorido, tão intenso? Como é que você consegue viver todo dia com o mundo se contorcendo, se desfazendo sob os pés? Eu não posso mais. Aqueles foram os melhores dias da minha vida, mas eles acabaram comigo. Tudo ruiu, eu estou em ruínas. Você parece uma fênix, um quebra-cabeças. Você se monta, se remonta, se mata e ainda tem sede. Você descansa no meu Aqueronte. É tudo o que eu posso te dar.

– Talvez seja melhor você ir embora mesmo.

– Tem certeza? – ela sentiu os ossos da mão, rijos, congelar ainda mais.

– Não. Eu te amo, mas eu não consigo.

Sentiu-se comprimida, mas e eu? Pegou a mão dele, quente, viscoso, lentamente subindo pelo braço. Conforto. Lacre. Quente. Quente. Quente. Não. Morno. Morno como o ar parado no meio de uma tarde de agosto. Ela abriu os olhos e o puxou pela mão:

– Vem, vamos para casa.

– Mas…

– Esquece isso.

– O brigado.

Eles caminharam abraçados.

Escuro viscoso morno sufoca. Prende. Eu só queria ver o dia.

– Eu também te amo – ela falou, como se ele não tivesse idéia do quanto.

Dr. Jekyll and Mr. Hyde

setembro 17, 2009

Você já teve medo de quem você é?

Hiato

setembro 11, 2009

Sem histórias para contar, só me resta imaginar a história de mim mesma.

Em vão.

Eu não tenho a coragem de vivê-la.

Eu me refugio no meu próprio tédio.