Virgínia (parte 3 de 3)

junho 23, 2009

Daniel e Adriano se sentaram à mesa de um quiosque na areia, Virgínia foi molhar os pés na água. De repente, alguma coisa na moça chamou a atenção de Adriano, ele a viu ao longe, de frente para o mar, com as sandálias na mão esquerda e o vestido branco esvoaçante. O vento soltou os cabelos de Virgínia quando ela estava voltando para a mesa, o sorriso que ela deu era o mais bonito do mundo, pensou Adriano, que nunca mais seria capaz de esquecer a imagem da Virgínia sorrindo na praia com os cabelos revoltos, a Virgínia de seios fartos no decote do vestido branco. Uma semana depois, Adriano pediria para namora-la, falando de como era bonita com os cabelos de sol e os olhos de mar. Ela diria que sim.

Durante o tempo em que Virgínia e Adriano ficaram juntos, ela redescobriu seu mundo na concretude do seu desejo de sentir-se amada. Não que Vicente não a amasse, mas antes de Adriano, Virgínia não sabia se era capaz de amar. Daniel, Adriano e Virgínia saíam todos os finais de semana.

Depois do primeiro ano com Adriano, Virgínia havia descoberto quase tudo sobre o amor, sobre os homens da cidade grande e sobre as coisas que faziam os casais. Em um ano Daniel voltaria para Rosário e Virgínia sugeriu a Adriano que fosse morar com ela.

–          Não seja tola, Virgínia!

Tola?, Virgínia, pensava, será que estava sendo tola ao querer dividir o espaço com ele, que já havia invadido seu ser como um oceano, por todos os poros, de modo que já não havia espaço nos pulmões para sentir o ar. Tola? Daquele dia em diante, as coisas nunca mais foram as mesmas com Adriano, tornou-se distante e já não queria passar os dias ao lado de Virgínia, arranjava desculpas para não encontra-la, estava sempre cheio de trabalho. Virgínia sentia como se ele houvesse se tornado alguém para quem seus braços houvessem se tornado demasiado curtos para alcançar. Os olhos de Virgínia tornaram-se para sempre salgados, como se o oceano que a houvera invadido estivesse lhe escapando aos poucos.

As coisas seguiam tortas com Adriano quando Virgínia chegou em casa naquele 22 de julho depois de uma manhã na praia com Adriano. Foi procurar o irmão e quando entrou no quarto, encontrou Daniel deitado sereno na cama, uma aranha vermelha passeando nas costas da mão esquerda do irmão. Estava morto. Eram três horas da tarde do dia 22 de julho e Daniel estava morto. Quando voltou do enterro, Virgínia pegou a caixa de chapéu onde guardava as cartas de Daniel e se trancou no quarto durante cinco dias. Quando por fim saiu de lá, Virgínia pensou “Que que faço agora?”. As aranhas de Daniel nunca abandonaram a janela.

Foi a praia, seis quilos mais magra, com o vestido branco, e sentou ali perto da água, onde dava pra sentir as ondas tocarem de leve a ponta dos dedos dos pés. Virgínia franziu a testa e olhou para a vastidão do mar, como se agora fosse capaz de entender o que acontecia quando o mar levava a gente embora. Lembrou-se de tudo, de Adriano, lembrou-se de como seria a vida com Adriano, a que teria se ele tivesse ido morar com ela. Todas as lembranças a atingiram como um dia nublado, a rigidez de Rubem os olhos de vidro e a voz minguada da mãe, o abraço reconfortante de Daniel, os sapatos de Vicente. Vicente jamais faria isso com ela, ele a amava tanto que às vezes pedia para ela respirar por ele, ele usava os sapatos de marfim sem se importar com o quão pesados eram. Virgínia achou então que finalmente podia entender Vicente. Havia amado Adriano da mesma forma que fora amada por Vicente. E fora, para Vicente, o mesmo que Adriano havia sido para ela. Chorou, como vinha fazendo há meses, e se sentiu só. Ali na praia nublada, vazia, ela mesma se sentia praia em dia chuvoso. Os cabelos de sol, os olhos de mar. Que faria agora?, pensou novamente consigo mesma.

Nos dias que se seguiram, sempre que pensava em Adriano, Virgínia ia ver o mar. Sentia vontade de vomitar toda vez que lembrava e lembrava dele o tempo todo, tudo naquela cidade era de Adriano, pertencera às memórias dele antes mesmo dela chegar, e as memórias que ela tinha eram todas dele. Todas com ele. Tudo que Adriano havia tocado virava dele nas lembranças de Virgínia. Até ela mesma.

Meses depois, Virgínia estava na praia, o vestido branco, sentada onde a água do mar podia tocar a ponta dos dedos. Pensava em como não tinha mais nada, Daniel havia morrido, Adriano também, a seu modo. Tudo isso já fazia muito tempo. Havia até pensado em procurar Vicente, mas não podia, isso não seria justo. Será que ela conseguiria seguir o exemplo dele e trocar os sapatos de marfim por tênis marrons? Suspirou. Não podia voltar para Rosário, lá não havia nada para ela. Uma onda mais forte alcançou a canela de Virgínia, que olhou com os olhos arregalados para o oceano, ainda tinha medo de ser levada para sempre pelo mar. Era uma tarde de sol, Virgínia levantou e fitou as rochas no horizonte, lá onde céu e mar eram uma coisa só. Apertou a barra do vestido com a mão direita e soltou. Envergou os dedos dos pés, enterrando-os na areia molhada e cambaleou discretamente para frente e depois para trás. Soltou o ar com força. Virgínia caminhou na direção do mar e sentiu a água gelada alcançando centímetro por centímetro do seu corpo, pensou que era bom estar sentindo um frio que não era aquele que havia dentro de si. Prendeu o ar quando as ondas lhe alcançaram a cabeça e não pôde abrir os olhos dentro da água. Sentiu-se flutuar submersa e imaginou uma vastidão verde ao redor de si, verde como olhar. De repente, quando achou que havia se tornado mar, encontrou a superfície. Soltou água dos pulmões e respirou fundo, afastou o cabelo grudado no rosto e olhou em volta com um misto de assombro e algo mais. Saiu da água exausta, e sentou novamente na areia, sentindo o sol secar a pele e roubar o frio. Sorriu.

–          Então é assim – disse sorrindo, os olhos de mar, os cabelos de sol. As sardas de sal.

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