Virgínia (Parte 2 de 3)

junho 14, 2009

Aos 16 anos, Virgínia manifestou o desejo de começar a trabalhar com o pai. Rubem lhe disse que fosse bordar com a mãe, o trabalho não era para as mulheres, Virgínia deveria se dar por satisfeita de ter freqüentado a escola e aprendido a ler e escrever, somar e subtrair. O que as mulheres deveriam fazer, pensava Rubem, era arrumar um marido.

Quando Virgínia terminou a escola, aos 18 anos, ainda sem arranjar um marido, recebeu um presente de Daniel: eram vários livros, no meio deles, uma ficha de inscrição e uma carta dizendo que era tudo para que ela estudasse para entrar na faculdade e fosse morar com ele na capital.

No final daquele ano, Virgínia anunciou aos pais que estava indo embora. Rubem disse que não poderia esperar mais nada de uma mulher que ainda não havia encontrado um marido aos 18 anos de idade. Úrsula fechou o semblante para Virgínia para o resto da vida, seus olhos se assemelhavam a duas bolas de vidro que já não eram capazes de dizer nada sobre a mulher que os possuía. No dia seguinte, Virgínia partiu.

Ao chegar, Daniel a levou até o apartamento, e  foi como se uma aura que tivesse ficado para trás a invadisse novamente. Era a poeira pairando, revelada pelos raios de sol das três da tarde que invadia o local. Ela soltou as malas no chão e olhou admirada para a sala diminuta de grandes janelas, suspirou como que reconhecendo que a atmosfera ali era a mesma que havia dentro de si.

Daniel lhe indicou uma porta em frente a de seu quarto e falou que era ali que Virgínia iria ficar. Ela agradeceu, e espiando o quarto do irmão, pôde ver aranhas coloridas tilintando ao sol na janela. Sentiu um arrepio. Morria de medo de aranhas.

Os dias na capital se passavam apressados, mas o que capturou Virgínia de maneira irremediável foi o mar, pois ela nunca o havia visto, tudo o que podia era imagina-lo pelas cartas de Daniel. No seu primeiro final de semana na capital, Daniel a levou para ver o mar. Virgínia desceu do ônibus com os olhos fechados.

–          Pode olhar, Virgínia

Ela cobriu os olhos fechados com as mãos por um instante antes de deixa-los enxergar. Respirou fundo o vento salgado, sentido-o preencher os pulmões interioranos, e abriu os olhos. Virgínia ficou boquiaberta enquanto os olhos se enchiam de lágrimas, salgadas, os olhos verdes que fitavam o verde do mar que mais parecia querer invadir os poros de Virgínia enquanto seus cabelos se soltavam do coque por causa da brisa marinha. O vestido florido de chita que usava no dia perdeu para sempre o cheiro de mato. Aqueles foram os cinco minutos mais longos da vida de Virgínia. Nesse dia ela pegou a areia com as mãos e sentiu o sol avermelhar  a pele sardenta. Botou a ponta do pé direito na água e teve medo, tirou o pé assustada antes que pudesse esboçar um peixe colorido.

–          O que foi, Virgínia, está frio?

Ela balançou a cabeça negativamente, apoiada no ombro do irmão

–          É que dá medo de o mar levar a gente para sempre e não devolver nunca mais.

Desde então, a praia virou o lugar favorito de Virgínia, um lugar que não era de Rosário,mas encontrava eco no fundo do peito dela mais do qualquer outro.

Os amigos de Daniel costumavam freqüentar o apartamento, para fazer trabalhos ou simplesmente se reunir para tomarem um vinho e conversar, fumar cigarros. Entre eles havia Adriano. Da primeira vez que Virgínia viu Adriano, foi pela fresta da porta de seu quarto, enquanto ele entrava no quarto de Daniel. Adriano não notou o olho verde que o avistou quase desinteressado, não fosse por uma languidez que o fez fechar-se rapidamente só para abrir-se de novo e se deparar com o vão da porta.

Em uma segunda ocasião, Virgínia passou para pegar um copo d’água logo ao acordar e foi surpreendida pela presença de Adriano e Daniel na sala.

–          Virgínia – Daniel disse – esse é Adriano, meu amigo.

Ela observou por cima do ombro e deu um sorriso tímido para ele, que tinha cabelos encaracolados, desaparecendo por trás das miçangas que se fingiam porta. Adriano abriu bem os olhos quando a viu, para reparar no rabo de cavalo loiro e no olhar desinteressado da moça que tinha um jeito esquisito de vestir. Ela segurou o copo com a mão esquerda na frente do filtro de barro e apoiou o lábio de baixo na boca do copo, com os olhos semicerrados, pensando por um instante. Em seguida tomou a água, largando o copo em cima da bancada e saiu pelas miçangas.

Nessas épocas de olhares enviesados com Adriano, Virgínia havia conhecido Vicente, um rapaz lá da faculdade. Era muito bonito e tinha uma barba cerrada, ele havia dado um beijo leve em Virgínia no final de uma aula, eles nem se conheciam. Foi a primeira vez que Virgínia experimentou lábios de alguém e por meses eles viveram uma história bonita. Virgínia lhe havia dado sapatos brancos de presente, “sapatos de marfim”, como ela havia dito. Mas eles se quebraram quando Virgínia percebeu que era lindo estar com Vicente, mas era Adriano quem protagonizava suas noites insones. Vicente trocou os sapatos por um par de tênis marrons.

Certa vez, Virgínia estava lendo no quarto quando ouviu duas batidas na porta de casa. Levantou, arrumando o vestido branco, e andou enquanto prendia os cabelos num rabo de cavalo. Abriu a porta, era Adriano. Encararam-se por segundos desconfortavelmente longos até que Adriano  perguntou se podia entrar, ele segurava um chapéu coco nas mãos. Ela se afastou, abrindo espaço, para depois fechar a porta nas costas do rapaz:

–          Daniel não está.

–          Ah – lamentou Adriano – se incomoda se eu esperar? Ainda tenho uns minutos sobrando.

–          Não, senta aí.

Adriano sentou no sofá da sala e Virgínia também, para lhe fazer companhia.A sala se encheu de um silêncio desconfortável, do tipo que sempre pairava nos encontros entre os dois. Os pássaros do meio da tarde faziam barulho, e o sol entrava pelas janelas, dando vontade de espreguiçar.

–          Está gostando da cidade? – ele perguntou

Virgínia esticou os braços, fazendo estalar os ombros, e respondeu:

–          Muito. Principalmente da praia. Acho que é quase como eu pensei que seria – sentiu uma pontada na boca do estômago, lembrando de Vicente e pensando nos cabelos daquele homem na sala com ela.

–          Ah…Isso é bom.

Ela abriu um sorriso olhando fundo nos olhos deles. Adriano respondeu com um sorriso desconcertado de canto de boca. A conversa foi interrompida pela chegada de Daniel que se desculpou dizendo que o ônibus havia quebrado no caminho. Daniel disse á Virgínia que ele e Adriano estavam indo tomar uma cerveja na praia e perguntou se ela não gostaria de se juntar a eles. Virgínia assentiu com a cabeça.

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