Virgínia (Parte 1 de 3)

junho 9, 2009

Virgínia nasceu em Rosário, uma cidade do interior que tem por tradição distanciar-se das outras. Era uma cidade de muitas cores, cheia de pomares e grandes casas de madeira, com o pé direito alto, que nunca ficam limpas, Rosário tem uma poeira constante que se acumula por dentro das casas.

Virgínia nasceu na casa da família Inis, que era dona de grande fortuna feita às custas de uma jazida encontrada por acidente pelo seu tataravô, Abelardo Inis. Diz-se que Abelardo foi parar em Rosário fugido do estrangeiro, acordara um dia em praia brasileira e correu mata à dentro, até que tropeçou numa grande pepita de ouro.

A casa da família Inis era afastada do restante da cidade e era cercada por um grandioso pomar. Virgínia morria de medo dos corredores longos e escuros, apesar das janelas, com as cortinas brancas que esvoaçavam soltando pó como se fossem vestígios das almas cansadas de seus antepassados. Sempre fazia frio na casa, motivo pelo qual Virgínia e o irmão costumavam passavam o dia todo no pomar. Mas à noite não podiam, porque o pai de Virgínia retornava da cidade mais próxima e maior, Portos, e todos tinham que se sentar à mesa para o jantar. As noites de Rosário eram horas sombrias para Virgínia, porque tudo o que se podia ver era a luz das velas hesitando a cada passada do vento. Essas lembranças povoariam os pesadelos de Virgínia para sempre.

Virgínia nasceu numa noite chuvosa de muitos raios o que, em Rosário, é sinal de mau agouro. Quando a mãe de Virgínia entrou em trabalho de parto, seu marido, Rubem, montou o cavalo no meio da chuva e bateu de porta em porta, tendo seu pedido negado por todas as casas. Sem saber o que mais poderia fazer, ele recorreu à choupana da mulher de tranças. Bateu duas vezes na porta e não teve resposta, abriu-a vagarosamente, observando aos poucos a imagem da mulher de tranças sentada em uma cadeira de balanço com os olhos duros fixos na parede, a boca entreaberta, trajando um vestido escuro de estopa, como sempre. Ela não se virou para olhar o visitante. Rubem tirou o chapéu, molhado, e o apertou contra o peito:

–          Minha mulher está tendo um filho

A mulher de tranças, sem modificar a expressão, assentiu vagarosamente com a cabeça. Eles partiram, então, em meio à tempestade. A mulher de tranças era assim conhecida porque sempre trazia o cabelo grisalho, longuíssimo, preso em duas tranças, a cidade toda trancou suas portas quando eles chegaram na cidade. Foi um parto difícil, dizem, Úrsula quase morreu. A menina nasceu com os cabelos loiros e os olhos verdes.

–          Vai se chamar Virgínia – disse Úrsula – Por causa da música.

Daniel, irmão de Virgínia,  nascera num dia de sol, no meio da tarde amena. Ele tinha cabelos e olhos castanhos, como os do pai. Quando Úrsula completou o nono mês de gravidez a casa foi acometida por uma estranha infestação de aranhas, que durou até os dois anos completos do menino. Não foram raras as vezes em que foi preciso afastar alguma aranha do berço da criança, elas estavam por toda parte, coloridas, com suas teias.

Virgínia começou a freqüentar a escola em Portos aos sete anos de idade. Ela não chorou na primeira vez que subiu na carroça que costumava levar as crianças para a escola. Secretamente, Virgínia estava ansiosa para ir a Portos, pensava se lá seria como Rosário.

–          Você não está com medo, Virgínia? – perguntou-lhe Daniel, durante o caminho.

Ela balançou a cabeça negativamente, mordendo os lábios num sorriso de criança:

–          Não. Eu nunca tenho medo quando estou com você – E aconchegou a cabeça no peito do irmão.

Ao chegar, Virgínia desceu da carroça de olhos arregalados, admirada pelas ruas de paralelepípedos. Ela apertou com força contra o peito o coelho de pano que sempre carregava num abraço. Daniel desceu e acariciou os cabelos da irmã pequena.

Com o tempo, a cidade de Portos lhe começou a parecer pequena. Gostava dos festivais, quando podia colocar os vestidos mais bonitos e comer algodão-doce. Mas a verdade é que Virgínia não tinha muitos amigos em Portos, nem em Rosário. Desse modo, ela acabava por passar a maior parte dos dias na companhia do irmão, pelo menos antes dos 16 anos dele, quando o pai o chamou para o serviço.

Na escola, Virgínia aprendia sobre aquele mundo que ela nem sabia que existia antes. Virgínia se debruçou de alma sobre as aulas que falavam do mundo, da vastidão dos oceanos que ela nunca havia visto. Certo dia chegou em casa e disse a sua mãe que queria ver o mundo. Úrsula mandou que estudasse.

Virgínia nunca esqueceu o conselho, nem mesmo quando cabulava as aulas para ficar sozinha na sombra da árvore de tangerinas do pomar. Vez ou outra Virgínia tinha dessas coisas, não era por falta de gosto, mas é que em alguns dias Virgínia era acometida por uma ânsia de urgência que lhe engasgava, então ia pra sombra da tangerineira chorar sua insatisfação com o tempo. Aos 11 anos de idade, Virgínia decidiu que iria para a cidade grande, para a capital, onde era cheio de gente e havia o mar.

Daniel deixou Rosário aos 20 anos para ir a faculdade. Rubem não gostou, pois achava que Daniel deveria tocar os negócios da família, a coisa com as frutas. Daniel lhe disse que iria estudar na capital para poder tocar o negócio da família da melhor maneira possível, queria fazer com que se expandisse para além de Portos. No dia em que ele foi, Úrsula não chorou porque sempre soube que era  o destino dos homens era crescer e deixar o lar. Rubem pretendeu que nada acontecia. Virgínia chorou o dia todo na beira do córrego, desenhando peixes na água com a ponta do pé direito. Trazia os cabelos presos num coque desajeitado e usava um vestido branco de estopa. Deitou para olhar para o céu de meio da tarde e ver se o sol lhe secava as lágrimas, mas nada disso adiantava. Nessa noite, jantaram em silêncio. Nada além do barulho dos talheres batendo nos pratos, das velas queimando, e da dificuldade de Virgínia para engolir a comida que parecia entalar no nó da garganta deixado pela ida de Daniel.

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