Recortes de diários #1

maio 19, 2017

17/03/2016

 

 

Em plena crescente

minguo.

O desejo do bodisatva

maio 1, 2017

é o

de não

desejar.

Retrógrado #3

abril 7, 2017

Quando você me amassa os cachos

e me toca a coluna, por fora

topo da cabeça, topografia do corpo:

percorrer as linhas do poema

com os dedos.

retrógrado #2

março 3, 2017

Em tempos de vênus retrógrada cada amante é uma efeméride.

Minha primeira tisana

janeiro 29, 2017

Tive um dia de folga inesperado hoje e estou tomando uma cerveja no sol e lendo um livro que veio parar aqui em casa quase por acidente, da Ana Hatherly:

 

151

Ponho sim ponho já que não posso não pôr na sua ausência o sentido. A autonomia da arte é igual à dos fios no tecido – corte aqui corte ali – é o corte que faz o tecido. Doutro modo haveria só novelos.

 

Acho que vejo assim o mundo atualmente.

Pas de deux

dezembro 18, 2016

Esbarrar no seu olhar

-ocupado no meu-

Uma perna esquerda cuja ponta do pé dentro do tênis resvala no chão, suspensa.

[semíminapausaparêntesenotação]

É preciso respeitar um homem que se escora em seu contrabaixo como um bêbado se apoia nos ombros de um amigo.

Revelações saturnianas

novembro 29, 2016

#5

Porto Alegre é purgatório.

 

#6

Convém não ter medo de colocar os pés no chão

(literal)

quase 3

outubro 31, 2016

Se te escrevo um recado – secreto-

é que te sinto falta e lanço garrafas aos oceanos que nos separam. Ainda que os mares fiquem para o outro lado. E se me procuro em linhas nas noites quentes

-explícitas-

é que te sinto aridez, deserto que tanto gosto e que me é distância.

Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar.

Tenho saudades de andorinhas, que todo dia no fim do dia se repetem: mergulham em grutas, submundos frescos, e se nutrem.

Subir pedras e entender as cabras na arte de distribuir cuidadosamente o peso e entrega-lo aos pés na descida, para que alcancem o solo com estabilidade. Preocupar-se menos com a subida pela frente e mais com cada passo dado, para preservar os joelhos. Cada passo te coloca em um lugar diferente.

Existe a distância entre duas pessoas que se amaram e a distância entendida em quilômetros. A distância que é feita dos anos e a que é feita de disposições. A distância do desejo e a distância do real. Uma distância que é sã, outra que é louca. Eu não sei se mais distante é aquilo que passou ou o que nem chegou a acontecer.A distância não é uma medida objetiva. Escamoteio no tema a minha vontade que é de falar sempre sobre a mesma coisa. A distância entre seus braços e os meus. Entre um e-mail e uma mensagem instantânea num aplicativo do celular. Essas distâncias me interessam. A distância entre um início de tarde que é quase manhã e meu nariz, congestionado de frio e de caos. A distância entre minhas duas pernas. Entre as unhas e os dedos. Entre a pessoa que escuta ininterruptamente o mesmo álbum e a mesma pessoa que dele enjoa. A distância entre as minhas costelas, que insistem em não fechar o plexo. A distância entre o trapézio tenso e o que relaxa. Entre quem sou, quem fui e quem virei a ser. Entre os vivos e os mortos. Entre os que moram em túneis e os que habitam a superfície. Entre um focinho e um amor. Entre o modo como desvirtuava o uso das vírgulas antes e agora.