Existe a distância entre duas pessoas que se amaram e a distância entendida em quilômetros. A distância que é feita dos anos e a que é feita de disposições. A distância do desejo e a distância do real. Uma distância que é sã, outra que é louca. Eu não sei se mais distante é aquilo que passou ou o que nem chegou a acontecer.A distância não é uma medida objetiva. Escamoteio no tema a minha vontade que é de falar sempre sobre a mesma coisa. A distância entre seus braços e os meus. Entre um e-mail e uma mensagem instantânea num aplicativo do celular. Essas distâncias me interessam. A distância entre um início de tarde que é quase manhã e meu nariz, congestionado de frio e de caos. A distância entre minhas duas pernas. Entre as unhas e os dedos. Entre a pessoa que escuta ininterruptamente o mesmo álbum e a mesma pessoa que dele enjoa. A distância entre as minhas costelas, que insistem em não fechar o plexo. A distância entre o trapézio tenso e o que relaxa. Entre quem sou, quem fui e quem virei a ser. Entre os vivos e os mortos. Entre os que moram em túneis e os que habitam a superfície. Entre um focinho e um amor. Entre o modo como desvirtuava o uso das vírgulas antes e agora.

Em trânsito #2

julho 19, 2016

Me apaixono por partes do corpo não convencionais:

– o formato das unhas das mãos de um rapaz jovem;

– os ossos da bacia da minha ex-namorada;

– as batatas da perna dele.

Em trânsito #1

junho 21, 2016

Talvez seja a primeira vez que escrevo algo em um avião. É quase bonito daqui de cima, quando eu me esqueço da morte iminente. Aeroportos são lugares curiosos de estar por muito tempo. Às vezes as pessoas falam com você. Outras, dá pra ver que gostariam de. E quando acontece é como se a gente se reconhecesse de certo modo refém de uma mesma circunstância. A busca por uma tomada que funciona para carregar os eletrônicos – acho que nenhuma delas está, já tentei as daqui –  informo uma moça – O seu vôo também atrasou? Sempre achei que aeroportos fossem esse lugar-não lugar-pronto pra bastar a si mesmo. Mas descubro que eles não passam incólumes aos acontecimentos externos, e quando há um grande engarrafamento em São Paulo é preciso segurar um pouco os embarques. Não existe nada que seja impermeável. Nem as pedras. Ou minhas botas de caminhada. Levantar os olhos do livro e se dar conta de que o saguão está cheio de policiais civis reunidos num bolinho, mas não tirar os fones de ouvido para saber do que se trata, mesmo sendo uma coisa que não se vê todos os dias. Nos aeroportos isso não tem importância, os aeroportos não são lugares de cotidianos. Confundir os banheiros – são todos iguais! –  a mesma es-tru-tu-ra, os bebedouros posicionados no mesmo lugar. Atravessar outro saguão e ter vários técnicos reunidos, usando capacetes e coletes ridiculamente verde limão, como o souvenir que levo no pulso, trazido de outro destino, de um passado recente. Carregam ferramentas. Gosto de ferramentas, hoje em dia, antes não entendia. Não fui criada para saber o mistério por trás das coisas, que sempre vieram prontas.

Exercício #1

junho 1, 2016

Avistaram-se na praça, a mesma praça a qual ela não havia retornado e onde ele sempre estava.  Baixou os olhos, miragem ao longe. Perto demais. Como eu disse, avistaram-se. Imediatamente se fez nela a memória de um sorriso de canto de boca. Ninguém escapa a um encontro. Lançou-se. Não ao encalço, mas ao acaso. Mentia. Esbarrou, sorriu, acenou. As conversas desconfortáveis são repletas de amenidades e cheias de querer saber mais, de procurar importâncias. De resolver desconforto em enlace descrente da necessidade de explicação. As vontades não são de dívidas, mas de diluição.

– Eu estou com alguém. Hoje.

Desencontro. Ao contrário do que tendemos a acreditar, a casualidade não preenche expectativas. E ao destino do flâneur âncoras escapam. Às vezes é preciso agarra-lo – o destino- com as duas mãos duras, areia. Há sempre algo que se perde e outro algo que fica na palma. Possibilidades. O acaso não serve ao querer, repito. Foi, partiu. Antes que ficasse. Cansou de fingir acidente. Desavistaram-se, terra à vista. Nada disso aconteceu.

Nesticodes rufipes

maio 3, 2016

Aprender com a paciência das aranhas que, estratégicas, tecem sua teia, viajam pelo ar e não revelam sua trama. Que têm as pernas maiores do que o corpo, moiras silenciosas, travam suas batalhas sem gritos de guerra e se lançam  ao outro com precisão. As aranhas, dia após dia, fazem o seu. E aguardam, armadilha. O tempo é uma aranha, com sua dedicação minuciosa ao cotidiano, dando voltas para chegar onde quer. Contornar o espaço, a comida, o problema. Tecem espirais.

 

Para Roberta

abril 14, 2016

Saudade

é quando gostaríamos de estar com uma pessoa, mas não estamos com ela

e nos faz falta estar com aquela pessoa.

Dizemos, então, que sentimos saudades.

Sentir saudades é como perder um membro

da noite pro dia,

é como acordar e não ter mais a nossa mão direita

– não importa que sejamos destros ou canhotos –

o que importa é que não temos algo

e que tivemos um dia.

Para ter saudade é preciso ser falho,

conceber-se enquanto faltante,

enquanto alguém que não tem um pedaço

e que não tem uma parte importante

de si.

Para sentir saudade

é preciso ser um pouco menos do que se é.

Partida

março 16, 2016

Daqui

 

 

Todo lugar é um norte.

Meditação em pausa

março 1, 2016

O sol bate nos meus pêlos, iridescentes. Sempre achei que iridescente era majoritariamente rosa, magenta. Mas olhando agora dá para ver, uma linha inteira amarela, canário. Azul celeste, real. Tons de verde, uma aurora boreal. E mandalas de moscas volantes, voláteis.

Labirinto

fevereiro 9, 2016

Gosto das palavras escritas porque às vezes me perco nelas. E às vezes até me encontro. Só pra me perder de novo numa conjunção, numa vírgula, na necessidade inexplicável de continuar um parágrafo. Ou de parar.

sobre corpos e memórias

janeiro 13, 2016

Somos herdeiros do sistema que nos pariu. Carregamos em nossas células os séculos de história que nos possibilitaram estar aqui. Mesmo que estejamos em desencontro com seus valores, em cada atrapalhada tentativa de fuga compartilhamos seus anseios. Serão necessárias gerações inteiras para que possamos nos relacionar de outras formas.