Song #1

janeiro 26, 2012

You are
my favorite
song.
Cada
c-e-n-t-í-m-e-t-r-o.

 

 

Saiwalô arrancou seu coração num dia de inverno exatamente igual àquele que fazia quando ela o encontrou no porão de um navio pesqueiro quase esquecido. Um navio fantasma, não fosse por um marujo que, sentado num banquinho ao lado das teias de aranha, contava as batidas daquela pequena curiosidade pulsante que a rede havia trazido um dia. Não podia fazer outra coisa. Ela, com o corpo coberto de algas, pegou de volta o coração e engoliu. E o marujo continuou a contar as batidas com o rosto perdido nas ondas dos cabelos azuis.   Até que decidiu aportar. E Saiwalô, geniosa, quis que ele ficasse com seu coração e, diante da negativa, sumiu-se determinada a florescer. Então foi num dia de inverno, igual àquele que fazia quando Saiwalô encontrou seu coração, que ela abriu o peito, exausta de carregar as batidas do marujo, e mastigou seu coração, acredoce, macerando e fazendo fundir todos os sentimentos sabores para parti-los em pedacinhos com os caninos. Embora fosse ela mesma uma pessoa de molares. Então cuspiu os pedaços do seu coração um por um nos quatro cantos mais gelados do oceano. Esperando que fizessem habitar as fossas mais profundas e o interior mais brilhante dos peixes que nelas moram.

 
Seguiu com estrelas do mar enfeitando os cabelos para fingir doçura nas ondas e deixou ocupar o peito com anêmonas coloridas, pois é conhecida a natureza pulsante das anêmonas que enfeitam o solo marinho. E esqueceu que um dia perseguiu incansavelmente pelos mares as batidas que assombravam o seu sono. Agraciou três ou quatro pares de pernas com espuma fresca de um dia de verão, viveu dias revoltos e dias calmos, dias gelados e escuros, e dias bonitos de sol com cheiro de coco e dendê. Mas nunca mais pôde se encantar daquele jeito que ia tão no fundo que doíam os ouvidos. E, inconstante como é, se enfadou desse vai e vem que nunca afoga.

 
Um dia, Saiwalô acordou num susto. Era uma cama macia que dividia com alguém que cheirava a baunilha e outro alguém de sorriso tímido. O mar sempre faz reanimar os sentimentos dos enamorados. Era uma noite quente e úmida de ar parado. Saiwalô acordou assustada e suando. Ofegante, não conseguiu retomar a respiração pelo que pareceu uma vida inteira. Ergueu o tronco e olhou em volta. Calmaria. O ar parado, quente, os corpos adormecidos, confortáveis, descobertos.  Acalmou o que quer que a sufocasse e deitou de novo. Sentiu faltar o ar mais uma vez. Então soube que alguma coisa grande havia acontecido, embora não soubesse o quê. Que alguma coisa tinha definitivamente perturbado o equilíbrio frágil do seu ecossistema e, dali para frente, nada nunca mais voltaria a ser como foi antes. Levantou, pediu desculpas e foi embora. Como maré que recua na noite.

 
Saiu bagunçada pelo mundo, mais salgada que de costume, até que um dia esbarrou. E foi direto ao fundo. Era o coração. Alguém tinha achado seu coração por acidente. Saiwalô não entendeu como aquilo poderia ter acontecido, mas desde então sente brotar qualquer coisa que expulsa as anêmonas de dentro do buraco. Qualquer coisa colorida. Descobriu que cada pedacinho semi digerido do seu coração estava sendo mantido dentro de um submarino, e que o capitão estava tentando fazê-los reviver na esperança de que aquelas partículas lhe explicassem os tantos mistérios que já havia vislumbrado no oceano. Ela entendeu que não teria mais escolha a não ser ir atrás das batidas enfim despertadas.

Put your records on

janeiro 13, 2012

Como se o amor fosse

algum tipo de jogo

pragmático

de escolher o momento.

Baunilha

dezembro 31, 2011

Queria contar com as pontas dos dedos

quantas pintas percorrem o seu corpo,

enquanto você finge que dorme.

Encomende sua ceia vegana!!

dezembro 21, 2011

Usando o espaço do blog nesse fim de ano para uma boa causa, o veganismo (e meu bolso, claro).

Este ano estou oferecendo três opções de pratos principais veganos para as ceias de natal e ano novo e uma opção de sobremesa. Somente para a cidade de Brasília: 

Bacalhoada de Shitake – R$: 35,00

Moqueca de Palmito – R$: 30,00

Strogonoff de soja com leite de coco – R$: 20,00

(Obs: esses valores são para uma embalagem média)

Tenho também acompanhamentos que vêm na embalagem pequena:

farofa de dendê (para a moqueca)

arroz branco

arroz integral

R$: 5,00 qualquer um deles.

A sobremesa esse ano:

cupcakes de banana com rum cobertos com ganache de chocolate e amêndoas.

O pedido mínimo é de 6 unidades, sai por R$:18,00

 

As encomendas devem ser feitas com pelo menos uma dia de antecedência, em caso de emergência vale telefonar e arriscar a sorte, mas não deixem pra última hora que os ingredientes podem estar em falta nos mercados!

Você pode vir buscar a sua encomenda até o dia 30 de dezembro aqui em casa, mais detalhes me mande um e-mail: nardellipatricia@gmail.com ou ligue no (61)99687716. Ingredientes e quantidades podem ser negociados.

Nesse natal não coma o presépio!

Um grande beijo a todos e por favor divulguem.

 

Vênus em Capricórnio

dezembro 11, 2011

 

“E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras liquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.”

Hilda Hilst

Um amor para desejar

novembro 29, 2011

Um amor que tenha vontade de escutar qualquer música que lembre sol e piscina num sábado de manhã. Um amor que faça piqueniques na beira do córrego, mesmo que às vezes prefira dormir até mais tarde. Nunca mais dormir até mais tarde. Porque um amor é dessas coisas que tem prazo de validade. Um amor com cheiro de cloro e uma trilha sonora brega do último cd de fellini. Um amor que viaje para deitar de costas nas pedras das cachoeiras de pirinópolis com um isopor cheio de cervejas. Um amor que ria com os amigos. Um amor que devore mais livros e goste de palavras bonitas. Um amor que plante uma horta e tire fotos de flores. Um amor que goste de gatos. Um amor que goste de cachos. E de sol. Um amor que goste comigo. Um amor que possa ser vários. Um amor pra gastar a tarde.

Memoir

novembro 27, 2011

Lembra?

Aquele dia

Que fez tanto frio

Na tua cama?

Nota solta sobre a depressão

novembro 24, 2011

Olha, o que eu queria te dizer é que não existem fatos para serem analisados, só o que existe é isso aqui, e isso aqui é muito pouco, quase nada, para ser honesta. Daí que eu não tenho nada para falar, porque eu já sou tudo o que tenho, compreende? Eu não posso inventar qualquer meia dúzia de poesia pra fazer mais vida na minha vida, porque nada disso a tornaria mais do que exatamente isso o que ela é. E te digo que por vezes ela quase nem é. Eu podia deitar no seu colo e chorar contando sobre essa sensação que não me abandona, essa de estar matando tempo entre o momento que eu nasci e o momento que vou morrer. Eu podia chorar e você podia me fazer cafuné, mas nada disso faria a minha vida ser outra.  Porque não vai passar. Você sabe disso talvez tanto quanto eu. Que não é uma fase. Que não é um dia ruim. Que eu já nem penso se é ruim ou bom. É só isso aí, o que tem para hoje, para ontem, para amanhã. Para sempre. Então desculpa se eu prefiro assim, comigo mesma. Porque não vale o esforço de dividir com alguém se a gente sabe que irremediavelmente essa sensação persiste. Não é um abraço, um colo, uma caneca de chocolate quente que vão diluir essa falta de vontade, de perspectiva. De vitalidade.  Essa flacidez moral da minha psique. Essa irresistível atração pela inércia e pelo repouso aliada ao que, se por algum momento isso voltasse a importar, eu diria que é azar. Deve ser exatamente isso, sabe, talvez eu nunca tenha me importado, nem quando me importei. Talvez nunca tenha sabido me importar. Mas nada disso vai fazer mudar essa circunstância que é a minha vida, e as coisas que acontecem com ela, e as coisas que eu faço não faço. Esse conjunto pueril de tentar negar o que é apenas uma espera. Não por alguém, ou por qualquer coisa que fizesse tudo ser outro. Nunca foi realmente por isso que eu estava esperando. Acho que sabemos, eu e você, que o que eu realmente sempre estive a espera foi do fim. De qualquer tipo de arrebatamento silencioso, desses que ninguém nota, nem mesmo os escolhidos. Uma espécie de ato santo último, que me livraria de ser exatamente quem eu sou.  A redenção final. Não há sentido sequer em buscar sentido: a vida não é mais que um interlúdio da morte.

Simples

novembro 4, 2011

Ela me chama de moça bonita.

E eu derreto.

Ela é tão linda que às vezes duvido

Que goste mesmo de mim.

Mas ela me chama de moça bonita.

E eu derreto.

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